Sobre o Pontão
O Pontão de Cultura Ubuntu:
História, Identidade e Missão
O Pontão de Cultura Ubuntu1 é herdeiro de uma história dos seus articuladores e idealizadores que se projeta para aquém do século XXI. Estes, ainda na década de 1980, articulavam-se junto a outros ativistas para criar ações políticas de salvaguarda e visibilidade das manifestações culturais que compõem o tecido das culturas populares, tradicionais e de matriz afro-indígena. No mesmo ano de 1989, os coordenadores do projeto que dá nome a este Pontão fundavam, respectivamente, duas entidades civis sem fins lucrativos, de caráter cultural, educacional e social, com cerne no enfrentamento ao racismo estrutural: a Associação de Capoeira Kilombarte, engajada no campo do patrimônio cultural, da memória social e dos direitos culturais, com ênfase nos patrimônios culturais afro-brasileiros, gestão cultural e educação para as relações etnicorraciais; e o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, com atuação em políticas públicas antirracistas na esfera dos direitos humanos.

[1] O termo de matriz africana Ubuntu, na língua shosa, traduzido “Eu sou porque nós somos” foi escolhido para guiar toda a identidade e a metodologia de atuação da iniciativa. Ele reflete a premissa de que o fortalecimento da cultura popular só ocorre por meio da coletividade, da solidariedade institucional e do reconhecimento mútuo entre as comunidades tradicionais e o poder público

Em ambas as experiências e trajetórias há, em comum, o lidar com a cultura, tanto no sentido da afirmação e valorização da identidade dos segmentos historicamente alijados da participação nas esferas de poder institucional, como na sua vinculação indissociável com a educação. É esse acúmulo de décadas que se expande para o Pontão de Cultura Ubuntu e desenvolve atividades artístico-culturais e de incentivo à leitura nas comunidades onde está presente, contribuindo para a promoção dos direitos humanos, da cidadania e da diversidade cultural.
Credenciado no âmbito da Política Nacional Cultura Viva (PNCV), instituída pela Lei nº 13.018/2014, o Pontão surge, portanto, não apenas como um executor de projetos isolados, mas como um grande polo articulador e mobilizador de redes de Pontos de Cultura, mestres, coletivos e fazedores de cultura, como se verão longo deste relatório.
A gestão, a salvaguarda jurídica e a operacionalização do Pontão de Cultura UBUNTU estão sob a responsabilidade do Instituto Cultural e Biblioteca comunitária Francisco Cyríaco da Silva, nome que, em substituição ao anterior (Biblioteca Comunitária Boa Vontade), é dado em homenagem ao capoeirista brasileiro que ficou famoso em todo o Brasil por ter vencido o lutador de jiu-jítsu japonês Sado Miako em 19092.
Com uma trajetória consolidada na defesa dos direitos culturais e no desenvolvimento social, a Biblioteca Cyríaco atua como a entidade proponente e gestora dos recursos, garantindo uma execução técnica transparente, rigorosa e alinhada com as diretrizes do Ministério da Cultura (MinC) e da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa – SECEC/RJ. A expertise da instituição em mediação cultural e gestão de projetos sociais foi fundamental para estabelecer a governança democrática que o Pontão exige.

[2] Cyriaco foi um dos primeiros heróis esportivos brasileiros oriundos das classes populares alçado a um símbolo da nascente república, que carecia de ídolos que fossem identificados com a emergente nação mestiça, como descrito no artigo de Marcelo Moraes e Silva – A construção de um improvável herói esportivo: o capoeira Cyriaco (1909-1925), publicado em 2023. Disponível em https://www.scielo.br/j/tem/a/gtRgppzqLD6JRH8BqKxZ8mP/?lang=pt. Acesso em 05 de junho de 2026

Frentes de atuação
Diferente de um Ponto de Cultura que atua de forma direta em sua comunidade local, o Pontão de Cultura Ubuntu cumpre um papel macroestrutural. Sua área de abrangência, para além do território de origem, o bairro periférico Vila Olimpia, em Guapimirim, compreende todo o estado do Rio de Janeiro, especialmente a região da Baixada Fluminense, atuando nas seguintes frentes:

- Articulação em Rede3:
mapeamento, caracterização, conexão e fortalecimento institucional de Pontos de Cultura locais e coletivos informais, com doação de mobiliário e outros materiais permanentes, em parceria com a Superintendência de Museus do Rio de Janeiro e o Sistema Estadual de Museus – SIM. - Formação e Capacitação:
desenvolvimento de oficinas, mentorias em gestão cultural e fomento à autonomia dos fazedores de cultura. - Políticas de Memória:
registro e difusão dos saberes de Mestres e Mestras de tradição oral, assegurando que o patrimônio imaterial seja documentado e transmitido.
[3]REBCRIO – Rede de Bibliotecas Comunitárias do estado do Rio de Janeiro; REMUS – Rede de Museologia Social do estado do Rio de Janeiro; Fórum dos Pontos de Cultura do estado do Rio de Janeiro compõem essa rede, em conformidade com a Lei nº 13.018/2014, Art. IV, inciso II que assim define pontões de cultura: entidades com constituição jurídica, de natureza/finalidade cultural e/ou educativa, que desenvolvam, acompanhem e articulem atividades culturais, em parceria com as redes regionais, identitárias e temáticas de pontos de cultura e outras redes temáticas, que se destinam à mobilização, à troca de experiências, ao desenvolvimento de ações conjuntas com governos locais e à articulação entre os diferentes pontos de cultura que poderão se agrupar em nível estadual e/ou regional ou por áreas temáticas de interesse comum, visando à capacitação, ao mapeamento e a ações conjuntas.
Vetores de comunicação institucional
Em desdobramento dessas frentes, a atuação do Pontão de Cultura UBUNTU é respaldada por três vetores, expressos em sua própria comunicação institucional:
- Valorização de Trajetórias:
reconhecer o percurso histórico de comunidades marginalizadas e dar centralidade aos seus protagonistas.
- Preservação de Memórias:
entender a memória não como algo estático no passado, mas como uma força viva, ancestral (simbolizada pelo pássaro Sankofa), que nos ensina a olhar para trás para ressignificar o presente e construir o futuro. - Gestão Compartilhada:
romper com lógicas verticais de ensino e cultura, promovendo assembleias, rodas de escuta e outras metodologias participativas onde a comunidade decide os rumos das ações

As 3 metas do Pontão de Cultura UBUNTU
É sob este alicerce institucional e político-cultural que o Pontão de Cultura UBUNTU abraça três metas, reafirmando o compromisso do Instituto Cultural e Biblioteca comunitária Francisco Cyríaco da Silva com a democracia cultural, a diversidade e a justiça social.

Na Meta 1 – Formação e Educação Cultural estão relatadas as experiências vivenciadas pela equipe do Pontão de Cultura UBUNTU e seus parceiros na realização das oficinas “Na Gingada Leitura”, na implantação das Berimbautecas e no desenvolvimento das Oficinas Ubuntu de Elaboração de Projetos e Cadastramento na Plataforma Cultura Viva.
Na Meta 2 – Articulação e Mobilização de Redes, são descritas, pormenorizadamente, as vinte e seis ações cuja finalidade foi estabelecer parcerias com instituições de educação e cultura, na intenção de articular e mobilizar esses diferentes grupos no âmbito do estado do Rio de Janeiro para o fortalecimento e ampliação das redes existentes.
O Registro e Divulgação das experiências acumuladas, compõem a Meta 3. A ênfase desta parte do trabalho está na visibilização de instituições/coletivos culturais nos contextos dos seus territórios de origem, sobretudo aqueles ainda não identificados ou pouco reconhecidos pelos programas de fomento. Concomitantemente, o relatório apresenta os dados e as informações de mestres e mestras das culturas populares e tradicionais, com vistas à caracterização dos diferentes aspectos que envidam o seu cotidiano. Essa caracterização, que está para além de mapear, é feita por meio de uma metodologia inovadora, como será sustentado na seção deste relatório destinada a este fim.
