Mestre Manoel Dionisio

Fotos: Acervo Pontão de Cultura Ubuntu


O Baluarte da Dança Afro-Brasileira e da Tradição dos Mestres-Salas

Manoel dos Anjos Dionisio, carinhosamente conhecido em todo o cenário cultural como Mestre Dionisio, nasceu no ano de 1936 no bairro de Corgo-Sujo, no município de Além Paraíba, em Minas Gerais. Vindo de uma família humilde composta por quatro irmãos, sua trajetória no Rio de Janeiro começou aos 5 anos de idade, quando migrou com os familiares. A mudança foi viabilizada por uma de suas irmãs, que já trabalhava na capital fluminense como doméstica e trouxe o restante da família.

Ao chegarem ao Rio, estabeleceram-se na Favela Praia do Pinto, localizada no bairro do Leblon, na Zona Sul. Desde muito jovem, entre os 10 e 12 anos, Manoel desdobrou-se em trabalhos para auxiliar no sustento do lar e ajudar sua mãe. Trabalhava entregando marmitas para uma pensão e atuava como engraxate nas calçadas de Copacabana. Após um trágico incêndio criminoso que destruiu a Praia do Pinto, a família mudou-se para o Morro do Pavão, onde residiram até o ano de 1965. No comércio local, Manoel conquistou sua primeira assinatura em carteira de trabalho no Mercadinho Carioca, sob a gerência do proprietário conhecido como Seu Cunha.


Raízes Comunitárias e a Militância Carnavalesca

A veia artística e o compromisso comunitário de Manoel Dionisio foram herdados diretamente de sua mãe, uma festeira que tocava pandeiro e organizava rodas de calango regadas a café preto e broa de milho para acolher e sustentar as pessoas da comunidade. Inspirado por essa forte influência materna, ele passou a promover eventos culturais e artísticos no complexo de favelas.

Uma de suas produções, na sede do Morro do Pavão, ganhou tamanha relevância que contou com a presença ilustre do cantor Sidney Magal, agitando os moradores do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Mais adiante, Manoel foi um dos fundadores do bloco carnavalesco Império do Pavão, cujas cores eram o verde e o branco. Contudo, devido às acirradas rivalidades carnavalescas da época, acabou sendo expulso do Cantagalo, o que motivou sua mudança definitiva, em 1965, para o bairro de Padre Miguel, na Zona Oeste.


O Encontro com Mercedes Batista e o Despertar para a Dança

Em paralelo às atividades comunitárias, Manoel Dionisio ingressou no serviço militar e serviu ao Exército Brasileiro. No ano de 1955, pediu baixa das forças armadas após concluir o curso de Cabo, período no qual aguardava uma promoção que não chegou a se materializar.

Sua trajetória artística mudou radicalmente durante um passeio despretensioso pelo Aterro do Flamengo. Ao avistar o anúncio de um espetáculo teatral, comprou o ingresso e foi assistir à apresentação. No teatro, ficou completamente fascinado pela força dos atabaques e pela estética do Balé Folclórico Mercedes Batista – companhia liderada por Mercedes Batista, a histórica primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro que, devido ao racismo estrutural da época, nunca pôde ocupar um papel principal na instituição.

Ao visitar a companhia pela primeira vez, Manoel foi imediatamente escolhido por Mercedes Batista para integrar o corpo de baile. Consolidando uma carreira que já soma 35 anos dedicados exclusivamente à arte da dança, ele se considera, com imenso orgulho, um discípulo direto do legado de Mercedes. Ao longo do tempo, enfrentou certa dificuldade para se acostumar com a reverência e o peso contidos no título de “Mestre Dionisio”.


A Jornada Internacional e o Legado dos Mestres-Salas

Consagrado também como um exímio mestre-sala no Carnaval carioca, Manoel Dionisio visitou a Acadêmicos do Salgueiro pela primeira vez em 1959 e, em 1963, interpretou o célebre balé coreografado da escola. A partir de suas intervenções e conhecimentos, impulsionou o surgimento progressivo de alas coreografadas nos desfiles de escolas de samba, além de ter atuado como instrutor, ensinando os segredos do pavilhão a grandes nomes, como a renomada porta-bandeira Marcela Alves.

Em 1971, aos 34 anos de idade, Mestre Dionisio recebeu a oportunidade de se transferir para a Europa, passando a residir na Alemanha. Sua estadia no continente europeu estendeu-se por 14 anos. Na Alemanha, liderou uma companhia de espetáculos composta por 26 mulheres e 8 rapazes. O mestre realizava um intercâmbio cultural contínuo: vinha periodicamente ao Brasil para buscar novas referências e influências artísticas e as levava de volta para a Europa, onde passou a montar um impactante show afro no encerramento de suas apresentações.

Por seu notório saber e relevância na salvaguarda do patrimônio imaterial, Mestre Dionisio conquistou medalhas e reconhecimentos internacionais na França, além de ser condecorado com o prêmio de Personalidade Masculina no ano de 1995.


Vida Pessoal, Reencontro e Resiliência

Na época de sua partida para a Europa, o mestre já era casado e pai de dois filhos. Durante os anos em que residiu em solo alemão, casou-se novamente com uma cidadã alemã, união da qual nasceu um casal de filhos; contudo, após a separação do casal, ele perdeu o contato e nunca mais a reencontrou.

Mestre Dionisio retornou definitivamente ao Brasil no ano de 1982. Anos mais tarde, sua vida familiar ganhou um capítulo emocionante: o mestre recebeu uma ligação oficial do consulado informando que alguém o procurava na Europa. Com o auxílio fundamental de um amigo que possuía o sobrenome em comum (Anderson Dionisio), o mestre conseguiu rastrear e reencontrar seu filho que continuava morando na Alemanha – um atleta hoje aposentado dos octógonos do UFC.

Atualmente, Mestre Dionisio encontra-se aposentado. Apesar de enfrentar as dificuldades comuns aos idosos e fazedores de cultura no Brasil, vendo o valor real de seu benefício previdenciário diminuir progressivamente ao longo dos anos, o mestre preserva sua dignidade e gratidão. Embora externe o desejo sincero de desfrutar de uma vida material melhor, ele afirma com convicção e orgulho que absolutamente tudo o que construiu e conquistou em sua existência foi graças ao poder e à magia da dança.