Mestre Levi

Fotos: Maria Buzanovsky


O Historiador e Guardião da Memória da Capoeiragem Fluminense

Levi Tavares de Souza, Mestre Levi, nasceu em Campos dos Goytacazes, indo para a cidade de Macaé, no estado do Rio de Janeiro, com meses de nascido. Durante a infância, costumava passar temporadas na casa de sua tia e madrinha – considerada por ele uma segunda mãe –, que residia próxima à histórica Igreja do Pilar, no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Seu primeiro contato indireto com a arte ocorreu por volta dos 11 anos de idade. Um vizinho que trabalhava em uma oficina costumava voltar para casa ao meio-dia e fazer acrobacias e cambalhotas do outro lado da cerca. Ele desafiava Levi e outras crianças da vizinhança a imitarem os movimentos. Na época, Mestre Levi encarava tudo apenas como uma brincadeira infantil, sem saber que se tratava de capoeira. Tanto que, quando seu pai vinha de Macaé e ouvia da tia que o menino estava estudando, mas jogando muita bola na rua e capoeira, Levi sequer compreendia o significado real da palavra.

O início formal e consciente na prática deu-se no começo da década de 1970, na academia do mestre Josias da Silva, onde as aulas eram ministradas pelo então contramestre Raimundo. Anos mais tarde, em um encontro em Curitiba, ao relatar essa história para o Mestre Paulo dos Anjos e outros mestres mais velhos, recebeu o conselho de contar seu tempo oficial na arte a partir da primeira ginga que realizou (entre 1968 e 1969), pois na época não existiam fichas ou documentações formais 1. Em 2018, completou a expressiva marca de 50 anos de dedicação ininterrupta à capoeiragem.

1 As documentações formais que definem o ofício de Mestre de Capoeira surgiram de forma oficial com o registro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural do Brasil em 20 de novembro de 2008. Esse dossiê oficial reconhece o mestre como o principal detentor e transmissor dos saberes, rituais e toques. Em 2024, o título foi revalidado e passou a se chamar Ofício dos Mestres e Mestras da Capoeira. Ver: https://bcr.iphan.gov.br/bens-culturais/oficio-dos-mestres-de-capoeira/ . Acesso em 12 Jul 2026.


O Grupo “Silêncio com a Fera” e o Retorno a Caxias

De volta a Macaé na juventude, Mestre Levi começou a treinar intensamente no quintal de sua casa com um jovem conhecido como Dengo. O compromisso com o treino era tão firme que, em dias de chuva, eles arrastavam os móveis da sala de estar para praticar dentro de casa, sob os protestos de sua falecida mãe. Ao atrair outros jovens locais interessados na defesa pessoal, Levi, que já tinha a experiência dos treinos na capital, assumiu a responsabilidade de orientá-los. Ao decidirem fundar uma escola, o nome escolhido refletiu a postura de humildade e respeito recomendada por Levi aos garotos: “Nós estamos aqui garotos jovens, não temos experiência. Vamos fazer a capoeira aqui, mas se chegar algum capoeirista, algum mestre lá do Rio de Janeiro, a gente tem que fazer silêncio, falar pouco e fazer silêncio com essas feras aí”. Assim nasceu o grupo “Silêncio com a Fera”.

O trabalho dessa garotada nas praias de Macaé (como a praia de Imbetiba) foi descoberto e testemunhado por grandes nomes, a começar pelo Mestre Machado. Quando o pai de Mestre Levi decidiu retornar em definitivo para Duque de Caxias, Levi orientou Mestre Dengo (que daria continuidade ao legado em Macaé) a buscar um Mestre para seguir sua trajetória. Em 1977/1978, Levi restabeleceu suas aulas em Caxias, no bairro de Campos Elíseos (próximo à Refinaria de Duque de Caxias – REDUC), formando turmas cujos alunos históricos ultrapassaram décadas de lealdade e hoje superam os 50 anos de idade, como o Mestre Milton (seu aluno mais antigo e primo) e o Mestre Tourinho.


O Encontro com o Mestre Corvo e a Formatura

Em meados dos anos 1970, enquanto servia como militar no Centro de Instrução Almirante Graça Aranha – CIAGA – Marinha do Brasil, Mestre Levi promovia rodas de capoeira à beira da piscina todas as quartas-feiras de esporte para militares vindos do Espírito Santo e de Campos. Sua trajetória mudou de patamar ao ser apresentado ao Mestre Corvo pelo falecido Mestre Djalma Bandeira. Após uma tentativa frustrada de encontrá-lo na Confederação Brasileira de Pugilismo, na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro, os dois finalmente se reuniram. Mestre Corvo, notando o potencial do jovem instrutor que estava sem uma liderança formal, fez-lhe o convite para treinar sob sua tutela. Mestre Levi aceitou e levou consigo todos os seus 54 alunos para a escola de seu novo mestre.

Sob a firme orientação de Mestre Corvo, Levi consolidou-se na capoeiragem e realizou sua formatura oficial de Mestre no ano de 1981, integrando a renomada Associação de Capoeira Cruzeiro do Sul ao lado de parceiros de formatura como o Mestre Montana. O falecimento prematuro de Mestre Corvo em 1986 deixou uma profunda saudade em Levi, que carrega as lições de ética, os ensinamentos de vida e a postura de “olho vivo e pé ligeiro” de seu mestre até hoje.


A Associação Casa do Engenho e o Legado Histórico

Mestre Levi é o fundador da Associação Casa do Engenho de Capoeira. O nome da instituição carrega uma profunda metáfora sobre a ancestralidade e o compromisso cultural. O engenho era historicamente o local de trabalho pesado e compulsório de segunda a sábado; como capoeirista, Levi define-se como um “escravo da capoeira” que não possui folga nem aos domingos, dedicando os sete dias da semana às viagens, pesquisas, rodas e difusão da arte. A Casa do Engenho representa, portanto, uma “casa de trabalho” e dedicação incessante.

Na vida pessoal e familiar, Mestre Levi transmitiu a herança da capoeira para o filho, que treinou até os 17 anos, e para a filha, que se formou em Educação Física. Além disso, a árvore genealógica de sua linhagem expandiu-se pelo Brasil, tendo ramificações que chegam a Pernambuco através de seu aluno Paulo Tavares e de seu “neto de capoeira”, Mestre Zé do Bola.

Exímio capoeirista reconhecido por sua postura de “Lord” e elegância nas rodas, Mestre Levi destaca-se, também, como compositor e instrumentista, criador de dezenas de cantigas e corridos populares no meio da capoeira, como “Vem Sambarô” e as homenagens aos amigos falecidos Mestre Mucungê e Mestre Corvo). Na qualidade de pesquisador e historiador social, dedicou mais de 30 anos à preservação da memória oral e documental da capoeiragem no Rio de Janeiro. Mestre Levi mapeou minuciosamente, em formato de árvore genealógica, as quatro grandes escolas que estruturaram a capoeira em espaços fechados no Rio a partir da década de 1950 (Mestre Artur Emídio, Mestre Paraná, Mestre Roque e Mestre Mário Buscapé), salvaguardando o elo histórico das linhagens para as futuras gerações.


Filosofia de Resistência e Visão para o Futuro

Mestre Levi defende ferrenhamente a autonomia e a liberdade da capoeira, posicionando-se contra tentativas externas de regulamentação burocrática ou confinamento da arte no que refere como “caixinhas normativas”. Para ele, a capoeira é uma instituição histórica de resistência e o primeiro grande movimento negro de libertação no Brasil. Como defensor da tradição, ele realiza suas rodas mensais de preservação em espaços abertos e públicos em Duque de Caxias, mantendo a essência da “vadiação de rua” onde os uniformes não são compulsórios e o foco reside na comunhão e no respeito mútuo.

Celebrando seu aniversário anualmente no dia 19 de agosto, Mestre Levi permanece ativo na defesa da inclusão de todas as pessoas, celebrando a expansão e o protagonismo conquistado pelas mulheres na capoeira moderna. Seu maior apelo direcionado à comunidade capoeirista é a união política e o afeto histórico, instando os praticantes a cuidarem e reverenciarem seus mestres em vida, honrando o sofrimento e a herança deixada pelos ancestrais.