umA Trajetória do trabalho da lavouraà artedo Fado Negro
Fotos: Maria Buzanovsky e Acervo Fado Negro de Quissamã
Compositor, escreve e prepara as suas próprias letras de fado, conhecidas nessa tradição como “mineiras”; instrumentista, toca viola e pandeiro; artesão, fabrica os próprios pandeiros do grupo, dominando o corte da madeira e o preparo do couro.
Infância, Raízes e a Herança do Fado
Ivail dos Santos, Mestre Ivail, o Guardião do Fado Negro de Quissamã, nasceu e foi criado neste município, no estado do Rio de Janeiro. Vindo de uma família profundamente ligada às tradições locais, ele é filho de Deodato dos Santos (que não cantava, mas era um exímio dançarino de fado) e de Maria Luiza de Andrade, uma festeira que tocava viola, pandeiro e dançava, e que faleceu aos 94 anos.
A paixão de Mestre Ivail pela cultura popular começou cedo. Aos 16 anos, ele ingressou no Fado Negro de Quissamã, aprendendo a tradição com os mais antigos: seus tios, sua mãe e seus avós. Em sua infância, o aprendizado era rigoroso e baseado na pura observação. As crianças não podiam entrar nos pequenos salões onde os adultos dançavam; Mestre Ivail e seus contemporâneos aprendiam espiando pelas janelas, gravando na mente o bater do pandeiro, o ponteado da viola e o ritmo dos passos.
Mestre Ivail representa a terceira geração do Fado Negro de Quissamã, uma expressão cultural única (diferente do fado português) que outrora preenchia todas as fazendas da região (Campos, Trajano de Moraes e Macabu), mas que hoje resiste fortemente apenas em Quissamã através do seu próprio esforço e paixão.
Trajetória de Vida e Carreira Profissional
Na juventude, trabalhou pesado na lavoura para ajudar no sustento de seus irmãos, o que limitou seus estudos até a 4ª/5ª série do antigo primário. Ainda jovem, alistou-se no Exército e viveu por 5 anos na cidade do Rio de Janeiro. Em 1968, mudou-se para Brasília, onde residiu no setor do Gama por 9 anos e meio. Em 1982, a pedido de seus pais que sentiam a distância e a longa viagem de quase três dias da época, Mestre Ivail retornou definitivamente para sua terra natal. De volta a Quissamã, consolidou sua carreira profissional no serviço público, na Guarda Municipal de Quissamã, onde atuou com orgulho por 25 anos na prefeitura, até a aposentadoria.
Na vida pessoal, o mestre enfrentou a dolorosa perda de sua companheira em 2021, vítima da Covid-19. Hoje, aos 80 anos de idade, completados recentemente1 , ele reside sozinho em sua casa própria de alvenaria próxima à rodoviária de Quissamã, na companhia fiel de seus três cachorros. Católico devoto e de muita fé em Nossa Senhora Aparecida, ele superou recentemente um período de mais de um ano de enfermidade e segue firme adiante.
1Coincidiu de a equipe do Pontão de Cultura UBUNTU, a propósito da realização de entrevistas pré-agendadas, estar presente na noite de comemoração do seu aniversário, na Casa da Farinha de Quissamã .
O Ofício de Mestre: Música, Artesanato e Resistência
Além de cantar e dançar, Mestre Ivail é um artista completo da cultura popular. Compositor, escreve e prepara as suas próprias letras de fado, conhecidas nessa tradição como “mineiras”; instrumentista, toca viola e pandeiro; artesão, fabrica os próprios pandeiros do grupo, dominando o corte da madeira e o preparo do couro.
Seu valor cultural é amplamente reconhecido fora de seu município. Mestre Ivail possui a carteira de Mestre de Terno de Reis (Reisado) reconhecida pelo Inepac 2. Atualmente, no fado, ele conta com a parceria dos cantores Joel e Alcebir para realizar as apresentações, que costumam ocorrer em locais como a Casa da Farinha ou o museu local. Toda a parte de produção, editais e presença digital do grupo é gerida por uma liderança fundamental, a Senhora Marta.
Mestre Ivail aponta com firmeza a falta de apoio financeiro e de fomento por parte do poder público municipal, destacando que a prefeitura muitas vezes utiliza a imagem em vídeo do fado para exibições externas, mas não oferece ajuda de custo, transporte ou suporte para a realização de oficinas locais. A sobrevivência da tradição tem sido garantida pela união do grupo e por pontuais apoios do Estado.
2O Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) é o órgão do Governo do Estado do Rio de Janeiro, vinculado à Secretaria de Estado de Cultura, responsável por preservar a identidade e a memória fluminenses
O Apelo para o Futuro
Ao celebrar suas oito décadas de vida com muita lucidez, Mestre Ivail deixa um apelo emocionado para as novas gerações. Ele lamenta que a juventude atual prefira o funk e outras distrações modernas em vez de valorizar a riqueza do fado local. Como o último de sua família a manter a tradição ativa, seu maior desejo é que os jovens se interessem em aprender a arte, permitindo que o Fado Negro de Quissamã faça a transição para uma quarta geração e nunca deixe de existir. “Nós viemos bancando esse fado de Quissamã por vontade, por gostar, por manter a tradição”. Essas palavras do Mestre Evail certamente são representativas de todos que se engajam na continuidade cultural do Fado Negro.
Aos 16 anos, ele ingressou no Fado Negro de Quissamã,
aprendendo a tradição com os mais antigos.
Seu valor cultural
é amplamente reconhecido fora de seu município.
“Nós viemos bancando esse Fado Negro de Quissamã
por vontade, por gostar, por manter a tradição.”
o Fado Negro de Quissamã,
é uma expressão cultural única (diferente do fado português) que outrora preenchia todas as fazendas da região.