Uma Trajetória marcada pela militância antirracista, a religiosidade e as artes
Fotos: Maria Buzanovsky
Foi por meio da Capoeira que me aproximei de comunidades tradicionais e estabeleci contato com os antigos detentores do Jongo na região do Vale do Paraíba.
Mestre Geraldinho do Jongo de Volta
José Geraldo da Costa, amplamente conhecido como Mestre Geraldinho do Jongo, é educador, historiador, poeta, escritor e mestre de saberes ancestrais. Nascido no estado do Rio de Janeiro, ele completou 60 anos em dezembro de 2025. Atualmente, reside na cidade de Volta Redonda, no Vale do Paraíba, onde atua como funcionário público municipal (professor da rede pública) e lidera uma das iniciativas mais expressivas de salvaguarda do jongo na região. Sua trajetória é marcada pela interseção entre a educação formal, a militância antirracista, a religiosidade e as artes tradicionais de matriz africana.
O Despertar e o Aprendizado Ancestral
A caminhada de Mestre Geraldinho na cultura tradicional começou no ano de 1980, tendo a capoeira como sua porta de entrada. Foi por meio dela que ele se aproximou de comunidades tradicionais e estabeleceu contato com os antigos detentores do jongo na região do Vale do Paraíba. Nesse processo de imersão e transmissão oral, ele reconhece como referências fundamentais de aprendizado o Mestre Gabion (Benedito Gabina Filho), seu mestre de fato, com quem aprendeu o ofício observando e vivenciando a prática, Mestre Benedito Cadu na Pai (Seu José de Oliveira) e Mestra Fatinha e suas irmãs, Memé e Gracinha.
Essa sólida base de ensinamentos construída ao longo de mais de quatro décadas de dedicação consagrou sua transição para o papel de Mestre. Na esfera espiritual, Geraldinho expressa com orgulho sua identidade religiosa, sendo iniciado no Candomblé da Nação Ketu.
A Fundação do “Jongo de Volta”
Após décadas de aprendizado contínuo junto ao Jongo de Pinheiral e outras comunidades tradicionais da região, Mestre Geraldinho fundou o seu próprio grupo em 11 de maio de 2015. Logo adiante recebeu certificação como Ponto de Cultura Jongo de Volta, nome que carrega um duplo sentido poético e histórico: faz uma paródia com a expressão “jongo de volta” (típica dos trocadilhos e metáforas das rodas de jongo) e, ao mesmo tempo, demarca o território de Volta Redonda. Em 2025 o coletivo celebrou o marco de 10 anos de existência com uma grande festividade.
Mestre Geraldinho ressalta que, embora Volta Redonda seja hoje vista essencialmente como uma cidade industrial, a presença do jongo na localidade é histórica e ancestral, remontando às antigas fazendas da região antes da instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), como Três Poços, Retiro e Aterrado. O projeto, portanto, atua para trazer esse jongo de volta à memória da cidade.
Atuação, Territórios e Desafios
O Ponto de Cultura Jongo de Volta atua de forma totalmente voluntária, contando com um núcleo de cerca de 28 integrantes fixos (podendo passar de 40 participantes flutuantes). As ações estruturantes focam nos conhecimentos tradicionais, na cultura negra, nos direitos humanos e no patrimônio imaterial, unindo dança, música, expressão literária e celebrações festivas. O público atendido é diverso, englobando desde crianças e jovens até idosos, quilombolas e populações em situação de vulnerabilidade social.
O coletivo não possui sede própria e opera de forma descentralizada em duas bases principais cedidas pelo poder público e parcerias em Volta Redonda, o Clube dos Palmares e o Memorial Zumbi, localizado na Rua 23, na Vila Santa Cecília. Apesar do reconhecimento institucional e de premiações pontuais do Estado (como editais voltados à rede de patrimônio e a Política Nacional Aldir Blanc), Mestre Geraldinho aponta que a falta de recursos financeiros contínuos e a ausência de um espaço físico próprio são os maiores obstáculos enfrentados para manter as atividades e dar a devida dignidade aos saberes que protege e transmite.
A Importância Histórica do Jongo no Vale do Paraíba
A história de Mestre Geraldinho e do coletivo Jongo de Volta joga luz sobre um capítulo fundamental da formação cultural do sudeste brasileiro: o Vale do Paraíba como o grande epicentro histórico do jongo e as transformações sofridas por essa tradição com o advento da modernidade industrial.
Durante o século XIX, o Vale do Paraíba concentrou a riqueza do ciclo do café no Brasil, sustentada integralmente pelo sistema escravista. Milhares de homens e mulheres escravizados, vindos majoritariamente da região Congo-Angola (de matriz linguística bantu), foram trazidos para as lavouras da região1. Desde então, o jongo veio se consolidando nesse território não apenas como uma expressão de música e dança, mas como uma ferramenta de sobrevivência, resistência e comunicação secreta.
Mestre Geraldinho argumenta que, por meio de metáforas e trocadilhos em poesia (os “pontos”), os jongueiros se comunicavam nas rodas sob os olhos dos feitores. Eles combinavam fugas, ironizavam os senhores e transmitiam avisos sem que os opressores compreendessem o código visual e linguístico. Neste sentido, a roda de jongo era um dos raros momentos onde a hierarquia da fazenda se invertia. Ali, os líderes da comunidade (os pretos velhos e mestres) detinham o respeito e o poder espiritual, curando e aconselhando através da ancestralidade. O Mestre torna a referir Pinheiral, Três Poços, Retiro e Aterrado como “lugares de memória” porque abrigavam antigas fazendas de café onde os tambores Caxambu e Candongueiro ecoaram intensamente antes da abolição.
1 Há uma extensa bibliografia que corrobora a abordagem do Mestre Geraldinho, como, por exemplo, um clássico de Ricardo Salles, que analisa como a expansão do café moldou a estrutura social e a elite agrária do século XIX. O autor demonstra o peso dos “barões do café” e o funcionamento cotidiano do sistema escravista. Ver: SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX. Senhores e escravos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
O Impacto da Industrialização e o “Apagamento” Cultural
A partir de meados do século XX, o Vale do Paraíba passou por uma mudança drástica de perfil econômico e social. O marco divisor desse processo foi a fundação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda, inaugurada nos anos 1940. A chegada da grande indústria transformou a dinâmica da região, a começar pela migração e pelo êxodo rural em razão da decadência das lavouras de café, que, somada à promessa de emprego na nascente indústria siderúrgica, provocou um forte êxodo rural. As famílias jongueiras, que mantinham a tradição viva nos territórios de antigas fazendas e pequenas comunidades rurais, mudaram-se para os centros urbanos em busca de sobrevivência, fragmentando os núcleos familiares onde a transmissão oral do jongo acontecia naturalmente.
Com a construção da CSN, Volta Redonda foi projetada e divulgada nacionalmente como a “Cidade do Aço”, símbolo da modernidade e do futuro industrial do Brasil. Essa narrativa de progresso tecnológico gerou um apagamento histórico da herança rural e afrodiaspórica da região. Criou-se o mito de que Volta Redonda nasceu a partir da fábrica, invisibilizando o fato de que aquele solo já era habitado, cultivado e sagrado para comunidades negras que dançavam o jongo muito antes das chaminés de aço existirem.
Legado: “Investimento em Gente”
Nas novas áreas urbanas industriais, as manifestações de matriz africana enfrentaram forte preconceito. O jongo e as religiões de terreiro, como o Candomblé Ketu mencionado pelo Mestre Geraldinho, foram empurrados para a periferia geográfica e social, vistos pela lógica higienista urbana como “práticas do passado” ou incompatíveis com o ritmo da vida operária.
Ao ocupar espaços como o Memorial Zumbi e o Clube dos Palmares, e ao aliar o jongo à pauta do antirracismo e da educação, Mestre Geraldinho e seu coletivo provam que a identidade operária da região não anula sua raiz africana; pelo contrário, o jongo resistiu por baixo do asfalto da cidade industrial e exige o seu lugar de direito na história do Vale do Paraíba.
O solo de Volta Redonda já era habitado, cultivado e sagrado para comunidades negras que dançavam o jongo.
O jongo e as religiões de terreiro, como o Candomblé Ketu foram empurrados para a periferia geográfica e social.