Uma Trajetória que rompeu as barreiras da exclusão e ganhou o mundo
Fotos: Maria Buzanovsky
Um dos ápices de seu reconhecimento global ocorreu quando Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos, visitou a Cidade de Deus e parou para assistir à sua vibrante apresentação de capoeira.
Das Chamas do Asfalto ao Axé da Capoeira: Guardião de Jacarepaguá
Derli da Silva Costa nasceu no dia 2 de abril de 1956, na histórica comunidade de São Carlos, no bairro do Estácio, berço do samba carioca. No entanto, as linhas iniciais de sua história foram traçadas sob o signo da vulnerabilidade: entre os sete e os nove anos de idade, fez das calçadas do Rio de Janeiro a sua morada. Foi na pele que sentiu a face mais cruel do abandono quando, aos oito anos, enquanto dormia nas ruas, três pessoas atearam fogo ao seu corpo.
A tragédia, contudo, não determinou o seu fim. Socorrido e acolhido por outras três almas generosas, o menino Derli foi apresentado à capoeira. Aquela arte, que misturava dança, luta e herança ancestral, funcionou como um bálsamo curativo. Vagando pelas ruas de Ipanema, o pequeno capoeirista encontrou afeto e sustento na sensibilidade de grandes artistas da cultura nacional, como Leila Diniz e Marieta Severo, que frequentemente o alimentavam e o incentivavam.
No dia 12 de outubro, data em que se celebra o Dia das Crianças, próximo de completar 11 anos, o destino mudou seu cenário. Derli e sua mãe mudaram-se para a recém-fundada Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio. Ali, ao lado de sua grande protetora, ele viveu até os 30 anos, fincando as raízes de seu propósito.
“Levantou o Astral” da Capoeira
Foi sob a tutela e os ensinamentos do respeitado Mestre Roque que Derli começou a praticar e a lapidar a sua capoeiragem, expandindo sua presença pelas rodas mais tradicionais do estado. Ao longo das décadas, sua dedicação transbordou o formato de defesa pessoal para se tornar uma filosofia de cura e elevação espiritual. Como em sua autodefinição: “a capoeira sempre foi mais forte que as dores da vida. Se eu não estava bem, ia para uma roda de capoeira e melhorava”. Sua energia contagiante, sorriso firme e jogo mandingueiro renderam-lhe um elogio eterno de seus pares e mestres, que afirmavam categoricamente: Derli “levantou o astral da capoeira”1. Defendendo a bandeira da arte com zelo e profunda reverência, ele passou a ser retratado como uma das maiores referências da Zona Oeste, identificado carinhosamente como o Mestre de Jacarepaguá.
1 Ver: BARBOSA, Valéria. Os grandes mestres Guardiães da Cidade de Deus: Fazedores de Destinos. São Paulo: Casa do Novo Autor Editora, 2012
O Legado Social e as Páginas de um Livro
Compreendendo a capoeira como uma ferramenta sagrada de resgate humano, Mestre Derli tornou-se um dos fundadores e o coordenador do Grupo de Capoeira Aliança Ariri. Através do grupo, levou o berimbau gunga para dentro das escolas municipais da Cidade de Deus, transformando a realidade de centenas de crianças e jovens que, assim como ele no passado, precisavam de um caminho de luz.
Sua dedicação em salvar vidas nas periferias foi coroada no Festival Juventude na Favela, onde recebeu uma grande homenagem por sua trajetória de impacto social. Sua caminhada inspiradora também foi eternizada na literatura, tornando-se personagem central do livro “Os Grandes Mestres Guardiões da Cidade de Deus“, escrito por Valéria Barbosa.
Fronteiras Rompidas: Da Favela para o Mundo
O menino que outrora dormia nas calçadas rompeu as barreiras invisíveis da exclusão e ganhou o mundo. Mestre Derli cruzou o oceano e as fronteiras americanas, viajando duas vezes para os Estados Unidos e acumulando prêmios internacionais. Um dos ápices de seu reconhecimento global ocorreu quando Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos, visitou a Cidade de Deus e parou para assistir à sua vibrante apresentação de capoeira.
Hoje, seu axé frutificou internacionalmente: o mestre possui alunos formados que perpetuam seus ensinamentos lecionando em solo canadense. Entre as inúmeras honrarias que recebeu ao longo de sua vitoriosa carreira, destacam-se a prestigiada Medalha Tiradentes (maior honraria concedida pelo Estado do Rio de Janeiro), a Medalha do Movimento de Cultura Negra e a Medalha de Reconhecimento outorgada pelo Cônsul do Canadá.
A Continuidade do Axé
A maior e mais bonita vitória de Mestre Derli, contudo, repousa no seio de sua própria família. Pai orgulhoso de duas filhas, ele viu seu legado de amor pela capoeira ser abraçado pela nova geração. Uma de suas filhas seguiu rigorosamente os passos do pai, Darlene de Lima Costa, a Mestra Darlene, tornando-se capoeirista e professora de Educação Física.
Mestre Derli foi a prova viva de que a capoeira é terra fértil onde a dor se transforma em arte, o trauma se converte em ritmo e o cidadão marginalizado se consagra como um guardião imortal da cultura brasileira. Ele faleceu no dia 10 de junho de 2026, aos 70 anos de idade, durante a elaboração desta breve resenha sobre a sua vida.
Levou o berimbau gunga
para dentro das escolas municipais da Cidade de Deus
Possui alunos formados que perpetuam seus ensinamentos