Mestre Dauá Puri

Fotos: Acervo Pontão de Cultura Ubuntu


Trajetória e
atuação

Dauá José da Silva é um mestre, escritor, historiador, contador de histórias, músico e jornalista indígena do povo Puri da região Sudeste. Sua trajetória é uma das principais referências contemporâneas na luta contra o apagamento da identidade e da memória dos povos originários fluminenses e na construção de espaços autônomos de museologia social no estado do Rio de Janeiro.


Origens e
Formação

Mestre Dauá traz em seu sangue a herança de resistência do território de Paraíba do Sul (RJ), sua terra natal. Seu avô, aos 13 anos de idade, fugiu para não ser escravizado, deixando na família a marca da palavra honrada e do compromisso com as origens. Sua caminhada na militância e na comunicação começou muito cedo, aos 11 anos de idade, trabalhando como jornaleiro no bairro de Jardim América, no Rio de Janeiro. Na juventude, ingressou no universo técnico e acadêmico, estudou técnica de jornalismo, cinema e segurança do trabalho. Nos anos 1970 e 1980, participou ativamente de marcos da cultura negra e popular no Rio, incluindo o primeiro encontro afro realizado na Cinelândia.

No ano de 2014, Dauá ingressou no ensino superior, graduando-se em Educação do Campo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em 2017. Seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), intitulado Cultura Indígena da Região Sudeste: Os Puri e Memória Iguará, reuniu um robusto acervo arqueológico, histórico e bibliográfico para fundamentar cientificamente a presença contínua do povo Puri no Sudeste, combatendo o discurso oficial de governantes da época que negavam a existência de populações indígenas originárias no território fluminense.


O Museu da Cultura
Puri

Em 2017, o fruto de sua pesquisa acadêmica e de campo levou o povo Puri para o Museu de Arte do Rio (MAR), integrando a histórica exposição de arte indígena contemporânea Dja Guata Porã. Diante do histórico descaso do Estado e do apagamento das memórias dessas exposições temporárias, Mestre Dauá Puri decidiu institucionalizar de forma independente a salvaguarda de seu povo.

Utilizando recursos de fomento da Lei Aldir Blanc e de editais estaduais voltados para Povos Tradicionais, o mestre realizou conquistas importantes. Gravou um disco em Paraíba do Sul, inserindo a língua Puri nas plataformas globais de streaming de áudio (como o Spotify) e comercializando o trabalho em formato físico (CD) para apoiar a causa. Criou o Museu da Cultura Puri, localizado em sua própria residência, no bairro do Estácio, região central e de alta complexidade do Rio de Janeiro, vizinha aos complexos de São Carlos e da Mineira (Rua Frei Caneca, 441). O espaço foi devidamente catalogado e reconhecido pelo Sistema Estadual de Museus do Rio de Janeiro (SBMC) sob o registro de número 026, além de estar em processo de cadastramento como Ponto de Memória junto ao Ibram e Ponto de Cultura.

O museu funciona de forma comunitária, contando com o apoio voluntário de cerca de oito colaboradores (majoritariamente estudantes universitários entre 20 e 30 anos, incluindo pessoas negras, mulheres e a comunidade LGBTQIAPN+). Desde a fundação, o local já atendeu mais de 2.200 visitantes, recebendo turmas de escolas públicas, universidades e grupos de terceira idade de Clínicas da Família para visitas agendadas às terças e quintas-feiras.

Os principais desafios enfrentados por Mestre Dauá Puri para a manutenção do Museu da Cultura Puri são de natureza financeira. A começar pelo fato do museu funcionar, atualmente, na sua residência (um apartamento do programa habitacional Minha Casa Minha Vida). Por ser um espaço residencial, há uma restrição que impossibilita um atendimento constante, gerando a necessidade de obter um espaço externo para realizar um atendimento condicional. Embora o local possa ser acessado por pessoas com deficiência, o museu não possui uma estrutura adequada de atendimento para esse público, carecendo de banheiro e acessos adaptados. O agendamento prévio das visitas (realizadas às terças e quintas) é necessário justamente em função da limitação da estrutura financeira para manter a funcionalidade básica do local, como o pagamento de internet.


Atuação, Saberes
e Desafios

A atuação de Dauá Puri desdobra-se em múltiplas linguagens artísticas e científicas, com destaque para a antropologia, arqueologia, literatura e música. O Mestre e seu coletivo oferecem oficinas de musicalização, contações de histórias tradicionais e palestras de conscientização em direitos humanos e preservação ambiental. Em termos de acessibilidade, o museu possui limitações estruturais em sua sede residencial (como a falta de banheiros totalmente adaptados), mas realiza atendimento e acolhimento inclusivo para pessoas com deficiência, registrando experiências bem-sucedidas com o público de deficiência visual.

Apesar do impacto pedagógico e do reconhecimento cultural de suas ações, o mestre ressalta que a escassez de recursos financeiros contínuos e a falta de um espaço físico externo e exclusivo continuam sendo as principais barreiras para a ampliação do Museu da Cultura Puri. Sua persistência mantém viva e pulsante a chama da identidade Puri no coração do Rio de Janeiro.