Uma Trajetória de superação social por meio da arte
Fotos: Maria Buzanovsky
A capoeira lhe forneceu limites, metas de vida, desafios e o ensinou o valor civilizatório do respeitoaos mais velhos, princípio basilar da matriz afro-brasileira.
Infância, Juventude e a Capoeira como “Segunda Pele”
A trajetória de Cláudio Pereira, amplamente conhecido como Mestre Cláudio, é uma narrativa de superação social por meio da arte. Nascido em uma família com escassos recursos econômicos, vivenciou uma infância simples onde as brincadeiras não exigiam custos. No entanto, foi na transição para a adolescência e a juventude que sentiu de perto o peso da vulnerabilidade social. Faltavam-lhe calçados, roupas adequadas e a infraestrutura básica necessária para se integrar e conviver em determinados grupos sociais.
Nesse cenário de privações, a cultura popular surgiu não apenas como uma alternativa de lazer, mas como um elemento transformador. Mestre Cláudio costuma definir a cultura e a capoeira como a sua “segunda pele”. Enquanto a sociedade impunha barreiras e o julgava pela ausência de vestes sofisticadas, Mestre Claudio fala, emocionadamente, que a roda de capoeira o acolheu de braços abertos: “ali, onde na época se jogava descalço e sem camisa, o critério de respeito não era a roupa, mas sim a força de vontade, a determinação e o conhecimento”. A capoeira lhe forneceu limites, metas de vida, desafios e o ensinou o valor civilizatório do respeito aos mais velhos, princípio basilar da matriz afro-brasileira.
A Busca pelo Conhecimento e a Consolidação Institucional
Determinado a se aprofundar na arte que o salvara, Mestre Cláudio enfrentou a falta de escolas técnicas e de uma estrutura formal de capoeira em Resende na sua juventude. Para aprender o ofício e absorver a verdadeira ginga, ele saía de seu trabalho na tradicional empresa Rodac (concessionária Volkswagen do Sul Fluminense, atualmente desativada) e deslocava-se até o município vizinho de Barra Mansa, onde treinou e se formou sob a tutela de grandes referências, como o Mestre Gomes e o Mestre Embaraço.
Demonstrando pioneirismo, Cláudio também foi um dos primeiros homens negros da região a ingressar no ensino superior, chegando a cursar até o segundo ano de Administração de Empresas em uma época em que não existiam políticas de cotas ou gratuidades universitárias.
Ao longo de cinco décadas de atuação, sua liderança consolidou-se na fundação e gestão de diferentes coletivos e salvaguardas culturais em Resende, a exemplo da Associação de Capoeira Berimbau de Angola, fundada por ele em 1985 para estruturar seus trabalhos com a capoeira tradicional na região de Resende; da Associação Residência de Capoeira, criada em outubro de 2020 com o propósito de atuar como uma rede de apoio burocrático junto a capoeiristas da região que estavam impossibilitados de concorrer em editais, por dívidas fiscais ou falta de documentação. Acrescente-se a estas o Instituto Afro-Brasileiro de Salvaguarda, a sua mais recente iniciativa institucional, criada para trabalhar em conexão com seus pontos de memória, de cultura e projetos, como o “Quilombos da Paz”.
O Terreiro da Resistência: O Instituto e a Sede no Morro do Batista
Atualmente, aos 70 anos de idade, casado, aposentado e funcionário ativo no Centro Histórico de Memória da Prefeitura de Resende, Mestre Cláudio mantém o Instituto sediado no bairro Lavapés, na área central, no topo do Morro do Batista. O espaço funciona em um imóvel alugado, cujo custo é dividido com sua irmã, e serve tanto para a guarda de acervos e hospedagem de mestres visitantes quanto para a articulação comunitária, tal como as tradicionais festas juninas colaborativas e gratuitas.
O corpo diretivo e de colaboradores do Instituto reflete uma rede de afeto e solidariedade que se move em torno da figura do próprio Mestre. A equipe conta com o secretário executivo Leandro, o instrutor de capoeira e futebol de salão Giovani, e o psicólogo Felipe de Jesus da Adão, profissional que cresceu sendo orientado pelo próprio Mestre. As parcerias estendem-se fortemente às mulheres da comunidade, responsáveis por toda a infraestrutura e alimentação dos eventos, a professores aposentados e a pessoas com deficiência, incluindo sua própria esposa, que possui deficiência visual e atua como pilar de sustentação dos projetos.
O Instituto Afro-Brasileiro de Salvaguarda atende a uma ampla diversidade social, conectando desde comunidades periféricas até turmas na região turística de Visconde de Mauá, além de manter trabalhos com alunos com deficiência visual. Financeiramente, a instituição movimenta uma média anual instável, dependendo essencialmente de editais públicos (como os recursos da Lei Aldir Blanc e da Lei Paulo Gustavo), enfrentando como principal obstáculo a burocracia e a lentidão na captação desses recursos.
Arte, Consciência e o Combate ao Racismo Estrutural
Além de mestre de capoeira, Cláudio desenvolveu habilidades como escultor, criando peças tridimensionais que moldam os movimentos e a ancestralidade da capoeira, substituindo os antigos “bilhetes de batizado” por símbolos reais de representação artística1.
Ao longo de sua vida, Mestre Cláudio enfrentou de cabeça erguida o racismo estrutural. Ele relata episódios marcantes de discriminação cotidianas e institucionais, desde motoristas de ônibus que recusavam sua parada na época em que ele era Diretor de Direitos Humanos, até o espanto de cidadãos e crianças que, ao ouvirem falar de seu prestigiado nome, esperavam encontrar uma figura branca na liderança. Em suas viagens internacionais pela Angola e pela África do Sul, encantou-se ao ver a população negra ocupando massivamente espaços de alta relevância médica, comercial e midiática, o que reforçou seu desejo de combater a realidade brasileira, que insiste em associar a pele negra à escassez.
1 No universo da capoeira, explica Mestre Claudio, “o termo bilhetes de batizado se refere a ingressos [bilhetes de rifa] vendidos para custear e arrecadar fundos para a realização do batizado de capoeira”. O batizado é um ritual de passagem, a cerimônia oficial onde os alunos iniciantes recebem sua primeira corda de graduação e os veteranos trocam de corda, marcando a evolução e formatura dentro do grupo. Ver: Silva, J. M. F. da (2003). A linguagem do corpo na capoeira. Rio de Janeiro: Sprint.
Legado: “Investimento em Gente”
Com os dois filhos criados e bem encaminhados no serviço público (um atuando na Polícia Militar de Minas Gerais e o outro no Corpo de Bombeiros de São Paulo), Mestre Cláudio defende convictamente que a arte e a educação em tempo integral dentro das escolas são as únicas ferramentas capazes de frear a violência urbana e dar dignidade à juventude periférica.
Seu maior orgulho não reside em acúmulos financeiros, mas no que chama de “investimento em gente”. Afirma que o seu maior prêmio é ver antigos alunos transformados em cidadãos plenos, profissionais formados e proprietários de estabelecimentos que, mesmo afastados da prática diária da capoeira, carregam para a vida os ensinamentos éticos e humanos recebidos de suas mãos.
aos 70 anos,
o Instituto Afro-Brasileiro de Salvaguarda é a sua mais recente iniciativa institucional
Ao longo de 5 décadas de atuação
sua liderança consolidou-se na fundação e gestão de diferentes coletivos e salvaguardas culturais