Mestre Bororó

Fotos: Maria Buzanovsky


Origens e o Batismo
no Carnaval da Saúde

A longa e expressiva trajetória de João Carlos Basílio da Silva, o Mestre Bororó, no universo da cultura popular urbana carioca teve início no ano de 1982. Com apenas 14 anos de idade, o jovem João Carlos ingressou no Bloco Coração L.M.S., uma agremiação genuína e tradicional do histórico bairro da Saúde, região da Zona Portuária do Rio de Janeiro que hoje muitos conhecem e reverenciam como Gamboa.

Atuando inicialmente como ritmista na ala dos repiques, João Carlos encontrou no asfalto e na pulsação do Carnaval a sua porta de entrada para o ecossistema cultural. Aquela vivência juvenil na efervescência portuária foi o estopim para que ele despertasse sua consciência sobre a riqueza das manifestações tradicionais do país e reconhecesse o valor histórico e ancestral de ser um legítimo originário desta terra.


A Ascensão no Samba e a Missão de Vigário Geral

O amadurecimento e a dedicação ao samba levaram João Carlos a assumir postos de alta responsabilidade e liderança na engrenagem do Carnaval carioca. Sua caminhada consolidou-se na passarela e nos bastidores dos desfiles oficiais, conduzindo-o ao posto de vice-presidente do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Vigário Geral, pavilhão tradicional da Zona Norte da cidade no qual se encontra ativo até os dias de hoje, defendendo a resistência cultural e a alegria da comunidade através do Carnaval.


A Sede Própria e a Fundação do Bloco Coração das Meninas

Movido por um desejo profundo de expandir sua atuação para além da folia sazonal e engajando-se com a herança afro-indígena, João Carlos compreendeu a urgência de estabelecer um território fixo de salvaguarda. Decidido a costurar a cultura de rua ao acolhimento social, ele alugou – sob um custoso esforço pessoal – um amplo espaço físico. Nessa sede, estabeleceu as bases da nova associação cultural e bloco carnavalesco Coração das Meninas, transformando o local em uma trincheira de preservação e um ponto de encontro comunitário permanente.


O Ponto de Cultura
Kwê-Pororó

Dentro da estrutura da sede do bloco Coração das Meninas, João Carlos fundou o Ponto de Cultura Kwê-Bororó, um centro de pertencimento e resistência afro-indígena nascido da necessidade latente de unificar a ação social e as matrizes tradicionais. O nome do espaço reflete perfeitamente o sincretismo de suas crenças e propósitos: imoró, termo oriundo das tradições pretas e do candomblé, que designa a casa do sagrado, a casa da ancestralidade e o local onde se guardam as memórias e os fundamentos sagrados; e bororó, vocábulo derivado das línguas dos povos nativos e originários que significa o pátio da aldeia.

Ao conceber o Kwê-Bororó, Mestre João Carlos ergueu uma “aldeia-terreiro” urbana destinada a abrigar e espalhar o conhecimento dos mais velhos. Na dinâmica do espaço, o mestre exerce uma pedagogia circular. Ao mesmo tempo em que lidera e ensina, coloca-se permanentemente na postura de eterno aprendiz diante dos anciãos e detentores de saberes que cruzam as portas do centro cultural.


Oficinas Gratuitas e a Cozinha Comunitária

O Ponto de Cultura destaca-se como um polo transformador e de inclusão na comunidade, oferecendo uma grade abrangente de oficinas formativas e artísticas direcionadas à população, totalmente gratuita. Entre as atividades desenvolvidas sob a sua gestão e fomento, destacam-se as oficinas: de Capoeira de Angola; Dança Afro-brasileira; Percussão de Atabaques (focada em toques de guerra, candomblé e teoria de santo); Percussão voltada para Escola de Samba (com turmas mistas e exclusivas para mulheres); e Cavaquinho e Violão (direcionadas especialmente para o protagonismo feminino).

Buscando o bem-estar integral e a dignidade de sua comunidade, Mestre Bororó acoplou à infraestrutura cultural uma expressiva Cozinha Comunitária. O projeto atua ativamente no combate à vulnerabilidade e à insegurança alimentar, servindo diariamente 280 refeições completas, de segunda a sexta-feira, para os moradores e alunos do entorno.


Legado de
Resistência

Financiando os altos custos de manutenção da sede por meio de desdobramentos e parcerias, Mestre Bororó personifica o operário da cultura viva carioca. Sua biografia é o testemunho de um jovem que começou tocando repique no asfalto da Gamboa e transformou sua maturidade em um farol de resistência, fazendo do pátio de sua aldeia um solo sagrado de cura, música, alimento e celebração da identidade afro-indígena brasileira.