Uma Trajetória de profunda sinergia étnica e ancestral
Fotos: Maria Buzanovsky
Mestre Amaral personifica a união entre a destreza manual e o letramento cultural, fazendo de cada pedaço de madeira um manifesto contra o apagamento histórico.
Força Ancestral do Sangue
A trajetória de José Gomes do Amaral Filho, conhecido em toda a Baixada Fluminense e no circuito artístico como Amaral Arte, é um testemunho de profunda sinergia étnica e ancestral. Nascido em uma família com raízes plurais, Mestre Amaral descende de uma linhagem cigana (seu bisavô era de etnia Calon) e indígena (sua avó materna, originária de Recife, Pernambuco). Sua mãe migrou de Recife para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades e casou-se com seu pai, um homem negro. Dessa união afro-indígena e cigana nasceu a essência criativa desse Mestre.
Seu nome artístico é uma homenagem direta e afetiva ao pai, em memória de sua força e trajetória de vida. A arte, conforme o próprio mestre relata, sempre esteve presente em seu DNA. Ele representa a quarta geração de sua família na arte do entalhe em madeira, uma tradição que remonta ao seu avô no Nordeste que, em seu sítio, moldava a madeira de forma manual e presenteava a todos os visitantes com esculturas, transformando o fazer artístico em um ato de troca e acolhimento.
A Caminhada Profissional: do Desenho Comercial à Cenografia no Projac
Desde a infância e o ensino primário, as expressões visuais acompanharam os passos do Mestre Amaral. Na juventude, buscou aperfeiçoamento técnico e formou-se em Desenho Livre, Desenho Artístico e Publicitário. Essa bagagem abriu as portas para que ele ingressasse na escola de cenografia e atuasse profissionalmente no Projac (atual Estúdios Globo).
Nos bastidores da televisão, ele expandiu significativamente seu repertório plástico. Foi nesse ambiente que se aprofundou nas técnicas de cenografia e conheceu de perto o grafite e a aerografia (conhecida como airbrush, técnica tridimensional com uso de microcaneta e ar comprimido). Dominando a aerografia, Mestre Amaral inovou ao substituir os pincéis tradicionais pelas telas grafitadas, projetando rostos e imagens com fidelidade realista. No entanto, o desejo latente de resgatar o legado familiar e esculpir diretamente na madeira continuava vivo em suas metas.
O Entalhe Africano, a Depressão e a Militância Contra a Intolerância
Ao assumir as ferramentas manuais para dar vida à arte sacra e ao entalhe africano, produzindo máscaras, estatuetas e símbolos históricos, Mestre Amaral enfrentou um dos maiores desafios de sua carreira: o preconceito e a ignorância estrutural. Em virtude do racismo religioso e do etnocentrismo que valida apenas a arte sacra de matriz europeia no Brasil, muitas de suas esculturas de matriz africana foram erroneamente associadas ao demônio.
Essa discriminação sistemática levou o artista a um severo quadro de depressão, fazendo com que ele se afastasse das feiras públicas por um longo período, passando a produzir apenas de forma reclusa, dentro de sua própria residência, para presentear amigos próximos. Em um desses episódios marcantes de intolerância sofridos em uma feira, o mestre chegou a desmontar sua barraca em estado de choque após ter suas obras publicamente hostilizadas por líderes religiosos locais.
Sua recuperação transformou-se em combustível para a militância cultural. Hoje, Mestre Amaral dedica sua voz e seu cinzel para combater essa demonização, defendendo que a arte africana é patrimônio histórico e estético da humanidade. Sua missão foca na educação, levando exposições e oficinas para escolas municipais, estaduais e ONGs, demonstrando que a identidade brasileira está integralmente conectada às raízes dos 54 países do continente africano.
Em 2019, idealizou a exposição Povo de Nossa Terra, composta por dez telas com retratos de povos indígenas. Atualmente, desenvolve uma mostra com mais de dez itens inspirados em grandes figuras e símbolos africanos, incluindo a célebre escultura O Pensador de Caxito (conhecida em sua pesquisa como Soyananga) e instrumentos ancestrais raros, como a Kora (instrumento de cordas com vestígios que remontam a 1.300 anos antes de Cristo).
Sua mais recente exposição, intitulada África, Ancestralidade e Arte, teve sua abertura realizada no CIEP 441 – Bairro Maria Conga, em Magé. O evento, construído em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reuniu estudantes e professores em uma semana dedicada à valorização da memória africana através da oralidade e do contato direto com as peças. Foi nessa ocasião que os coordenadores do Pontão de Cultura Ubuntu tiveram o primeiro contato com esse Mestre.
O Sacerdócio e a Ação Social no Templo Acamária Sim
Com quase 40 anos de dedicação autônoma à cultura, abdicando do regime de trabalho tradicional para viver de sua vocação, Mestre Amaral também atua de forma proeminente na esfera espiritual. Ele é sacerdote do Templo Espiritualista Acamária Sim, uma casa de culto às tradições de Umbanda e nação Angola (sendo bisneto espiritual de Joãozinho da Gomeia, um dos maiores baluartes do candomblé brasileiro). O mestre faz uma distinção clara entre suas funções: veste os trajes e os preceitos sagrados dentro do terreiro, mas porta-se como o cidadão João no cotidiano, exigindo respeito a ambas as facetas.
Cerca de 50% de sua produção artística atende ao nicho religioso das casas espíritas. No templo, localizado em Piabetá, Magé – região rica em territórios tradicionais e históricos –, ele e sua esposa coordenam um trabalho de forte impacto comunitário, prestando acolhimento psicológico, aconselhamento por meio da arte e auxílio material. Através desse suporte social, o mestre orgulha-se de ter ajudado diversas pessoas a superarem a dependência química e o alcoolismo, devolvendo-lhes qualidade de vida.
O espaço do terreiro e de sua residência própria passa atualmente por reformas estruturais para a inclusão de acessibilidade física (rampas e corrimãos) e metodológica (abordagens pedagógicas inclusivas). O plano do mestre é inaugurar um ateliê cultural totalmente independente da área de culto religioso, criando um polo neutro para receber oficinas e outros profissionais, protegendo os alunos de quaisquer barreiras de discriminação.
Reconhecimento e Legado
Apesar de relatar as dificuldades crônicas de financiamento e a falta de reconhecimento e incentivo por parte do poder público municipal em sua atual localidade, Mestre Amaral é amplamente reverenciado no estado e em municípios vizinhos, como Duque de Caxias, onde teve projetos aprovados por editais como a Lei Aldir Blanc.
Seu profundo conhecimento prático e teórico, sua ancestralidade cigana e sua contribuição à diversidade étnica do estado foram homenageadas com uma Moção de Reconhecimento pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). Aos 54 anos de idade, pai de dois filhos (sendo um deles músico percussionista), Mestre José Gomes do Amaral Filho personifica a união entre a destreza manual e o letramento cultural. Fazendo de cada pedaço de madeira um manifesto contra o apagamento histórico, sua biografia consolida-se como um farol de resistência afro-indígena e cigana na Baixada Fluminense.
Mestre Amaral
representa a quarta geração de sua família na arte do entalhe em madeira, uma tradição que remonta ao seu avô no Nordeste
Ele dedica sua voz e seu cinzel para combater a emonização, defendendo que a arte africana é patrimônio histórico e estético da humanidade.