Uma Trajetória de dedicaçÃo à docência e ao fomento da capoeira
Fotos: Maria Buzanovsky
Gerencia e capitaneia dois importantes projetos de relevância regional chancelados como Pontos de Cultura: a Arena Cultural da Ilha Grande e o Ponto de Cultura Tradicional da Costa Verde.
Origens e a Trajetória na Capoeira: Da Volta Redonda à Costa Verde
Nascido em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, a jornada de Adriano Fábio da Guia – conhecido em toda a esfera cultural como Mestre Adriano – confunde-se com a história e a evolução da capoeira contemporânea no estado fluminense. Seus primeiros passos na arte da ginga foram dados no início da década de 1980, no histórico Grupo Palmares de Volta Redonda. Sob a tutela de Mestre Sandoval (que na época ostentava a graduação de Contra-Mestre Negretinho), Adriano treinou intensamente por seis anos, período no qual absorveu os fundamentos da disciplina e foi graduado como professor.
Movido por uma inquietação artística e pelo desejo de aprofundar seus conhecimentos práticos e teóricos, Adriano aproximou-se do renomado Grupo Senzala. Sua transição deu-se por intermédio de Mestre Abutre, um dos discípulos de Mestre Peixinho, que coordenava um núcleo do Senzala no município de Angra dos Reis. Fiel à sua nova bandeira, consolidou sua maturidade na arte e foi consagrado com a prestigiada corda vermelha pelas mãos de Mestre Tony Vargas.
Dotado de uma visão crítica e consciente sobre a tradição, Mestre Adriano costuma pontuar que a corda vermelha funciona apenas como uma espécie de “diploma acadêmico”, mas que a verdadeira mestria não é outorgada por uma instituição: ela é forjada pelo próprio capoeirista através de suas ações e de seu reconhecimento perante a sociedade.
O Acidente e a Reinvenção do Agente Cultural
Ao longo de quase quatro décadas, Mestre Adriano dedicou sua vida integralmente à docência e ao fomento da capoeira. Contudo, há cerca de quatro anos, sua rotina de atividades físicas foi severamente interrompida por um grave acidente. O ocorrido afastou-o das rodas e resultou em sua aposentadoria por incapacidade junto ao INSS.
Diante das limitações impostas pela nova realidade física, Adriano iniciou um profundo processo de autocrítica e reinvenção pessoal. Compreendendo que sua maturidade intelectual e seu vasto repertório patrimonial permanecem intactos, ele busca se reposicionar no cenário fluminense não mais como um atleta de frente, mas como um pensador e articulador cultural de base. Sua atuação estende-se de forma plural por toda a Costa Verde, mantendo conexões estreitas e respeitadas com as manifestações de Cirandas, Folias de Reis, comunidades quilombolas, caiçaras e aldeias indígenas locais.
Letramento Racial, Memória Genealógica e Crítica ao Sistema
Para Mestre Adriano, “a cultura popular desempenha um papel pedagógico urgente e emancipatório, funcionando como uma contra-narrativa à história oficial ensinada nos colégios tradicionais”, a qual ele acusa de promover o apagamento sistemático da identidade dos povos originários e afro-brasileiros. Ecoando os versos tradicionais da Ciranda fluminense – “Quem procura o que não conhece, quando encontra não reconhece”, o mestre adverte sobre os perigos do vazio de direção e do distanciamento da ancestralidade.
Adriano defende que a verdadeira história e o propósito de um indivíduo estão salvaguardados em sua informação e herança genealógica. De acordo com suas reflexões – fortemente influenciadas por conceitos da filosofia budista, religião com a qual se identificou na adolescência e cujos princípios de herança ancestral trouxe para o seu fazer cultural –, cada ser humano carrega em seu DNA o registro de centenas de antepassados que se amaram ou se odiaram. Compreender esse emaranhado de memórias biológicas, para o mestre, é a chave para pacificar os conflitos internos do homem contemporâneo.
A Liga Afro-Brasileira e a Gestão Coletiva
Buscando profissionalizar e dar vazão institucional às demandas das culturas tradicionais da Costa Verde, Mestre Adriano fundou a Liga Cultural Afro-Brasileira, uma associação jurídica sem fins lucrativos que funciona como a instituição mãe de suas ações. A partir da Liga, o gestor gerencia e capitaneia dois importantes projetos de relevância regional chancelados como Pontos de Cultura: a Arena Cultural da Ilha Grande e o Ponto de Cultura Tradicional da Costa Verde.
Apesar de reconhecer a necessidade de se manter em conformidade com as normas burocráticas impostas pelo sistema para captar recursos, Adriano aponta os frequentes conflitos existentes entre a rigidez administrativa estatal e as pedagogias tradicionais, citando como exemplo o choque comum entre os estatutos associativos ocidentais e a liderança soberana dos Caciques dentro das aldeias indígenas.
Atualmente, sem uma sede física própria para centralizar as atividades – que são executadas em regime itinerante através de parcerias com escolas públicas, casas de cultura e associações de moradores –, a Liga Cultural Afro-Brasileira encontra-se sediada juridicamente na residência própria onde Adriano reside com sua família no Morro do Moreno, no distrito de Jacuecanga, em Angra dos Reis. O território, caracterizado por restrições de infraestrutura pública e conflitos socioambientais decorrentes de legislações de conservação ambiental que barram o acesso à água encanada e ao saneamento básico, reflete a realidade das comunidades periféricas cuidadas pelo mestre.
Transmissão de Saberes e Legado
Como gestor e produtor de sua instituição, Adriano coordena uma equipe diretiva e executiva de caráter totalmente voluntário. Sob sua liderança, a Liga desenvolve projetos multidisciplinares que englobam a produção de documentários audiovisuais, apresentações musicais, espetáculos teatrais populares e projetos esportivos de canoagem em uma escola náutica comunitária. A excelência e a resiliência de seu trabalho renderam à instituição importantes apoios de fomento nos últimos anos, incluindo premiações via editais históricos da Lei Aldir Blanc, como o Prêmio Asa.
Nas rodas de capoeira, Mestre Adriano refinou uma sensibilidade aguçada e sinérgica para ler os corpos e as expressões emotivas de seus alunos. Ele defende que o verdadeiro educador deve ir além da técnica física, sendo capaz de decifrar a aura e o estado de espírito do praticante para acolhê-lo em suas vulnerabilidades.
Aos 56 anos de idade, casado e pai de dois filhos – incluindo seu caçula de 12 anos que segue seus passos nos estudos –, Adriano Fábio da Guia desconstrói cotidianamente os resquícios de uma educação machista na qual foi criado. Fazendo de sua Liga e de sua corda vermelha trincheiras contra o esvaziamento existencial da juventude, sua biografia consolida-se como um farol de resistência pluricultural na Costa Verde fluminense.
Se reinventando como Agente Cultural,
ele busca se reposicionar como um pensador e articulador cultural de base…
mantendo conexões estreitas e respeitadas com as manifestações de Cirandas, Folias de Reis, comunidades quilombolas, caiçaras e aldeias indígenas locais.