Mestra Marlucia

Fotos: Maria Buzanovsky


A Força e a Resistência da Mulher no Manguezal

Marlúcia Correa Santos é pescadora caranguejeira na Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangues de Magé (ACAMM) há mais de 10 anos. Em sua adolescência lidou com uma maternidade precoce e enfrentou os desafios que fazem parte da vida de muitas mulheres brasileiras. O machismo e as violências do cotidiano, porém, não impediram a pescadora de mudar sua própria história. Com a ajuda de seu cunhado aprendeu a trabalhar no mangue em busca de seu sustento e de sua família. Graças à Associação, Marlucia encontrou em outras pescadoras um acalanto para recomeçar.

Marlucia iniciou sua trajetória de vida de forma muito próxima às realidades e aos desafios da vida ribeirinha. Mãe muito jovem, enfrentou a maternidade difícil aos 17 anos de idade, um período que exigiu resiliência enquanto conciliava os cuidados com a família e as responsabilidades precoces.

Em 1984, Marlucia casou-se com um pescador. Durante muito tempo, sua rotina se resumia a cuidar estritamente do lar. No entanto, ao observar o ofício do marido e a riqueza natural que cercava sua região, nasceu em seu coração o profundo desejo de ir para o manguezal, para trabalhar.

Inicialmente, Marlucia enfrentou resistência. A princípio, o “não” que recebeu como resposta e os obstáculos impostos para que ela não desempenhasse aquela atividade, em vez de desanimá-la, funcionaram como combustível. A negativa despertou de vez a sua vontade de ir para o manguezal. Com determinação, ela passou a traçar e criar estratégias próprias para conseguir adentrar aquele espaço, conquistando o seu direito de trabalhar junto à lama e às águas.


O Ofício no Mangue e a Consciência Ambiental

Ao consolidar-se na atividade, Marlucia tornou-se uma pescadora e integrou-se ativamente ao grupo de caranguejeiras locais. O dia a dia no mangue trouxe a ela não apenas o sustento, mas também uma percepção aguçada sobre as questões ambientais correlacionadas ao mangue. Como catadora e pescadora, ela compreendeu de perto a importância da preservação desse ecossistema sensível, que sofre constantemente com os impactos da degradação e do qual tantas famílias dependem para sobreviver.

Além de sua forte atuação na pesca, Marlucia estruturou sua vida familiar e criou três filhos, que hoje desempenham profissões distintas e honradas na sociedade: um seguiu os passos da família como pescador, outro atua como pedreiro e o terceiro trabalha como barbeiro.


O Coletivo de Mulheres e a Troca de Saberes

Atualmente, o maior refúgio de força e união de Marlucia está no ambiente de comunicação e vivência com outras mulheres trabalhadoras do mar. Ela define essa convivência como uma verdadeira troca de saberes e entrosamento cultural. Dentro desse coletivo, as mulheres compartilham valiosos conhecimentos ancestrais que vão muito além da pesca, a exemplo dos experimentos de medicina tradicional, com o uso de ervas nativas para tratamentos e chás, e a descoberta de novos tipos de alimentação e temperos da terra na elaboração culinária e de condimentos.

A valorização da tradição é um pilar fundamental no cotidiano de Marlucia. Após retirarem os alimentos diretamente do manguezal, as mulheres se reúnem para cozinhar juntas, sempre à moda antiga, utilizando o tradicional fogão de lenha para preparar o próprio sustento. Mestra Marlucia afirma que “é muito legal esse entrosamento, porque há uma troca de conhecimento que fortalece… nos faz sair fortalecida […] cada uma que chega lá tem chegado só para somar”.

A Mestra segue firme em sua caminhada, sendo o retrato da união comunitária, da soberania alimentar e da liderança de mulheres que protegem as águas, a terra e a memória coletiva, provando que o manguezal também é espaço de direito, voz e autonomia feminina.