Uma Trajetória marcada por uma Pedagogiabaseada na capoeira
Fotos: Acervo Pontão de Cultura Ubuntu
Com a capoeira, transformou sua prática pedagógica,distanciando-se do modelo de educação física escolar tradicional, e adotando uma pedagogia holística, baseada na circularidade, na musicalidade e nos valores civilizatórios afro-brasileiros.
Origem, Infância e Primeiros Passos na Capoeira
Jussara Santos Queirós é carioca, tem 52 anos e reside na cidade do Rio de Janeiro, no bairro da Praça Seca (região de Jacarepaguá), onde vive há 45 anos. Sua história com a capoeira começou ainda na infância. De forma escondida de sua família, que lhe dava dinheiro para aulas de violão, o qual ela utilizava para pagar as aulas de capoeira, Jussara iniciou-se na prática motivada pela identificação com a luta e pela necessidade de autodefesa, já que precisava proteger a si mesma e à sua irmã mais nova na comunidade onde morava. Esse início, entretanto, foi interrompido precocemente após o assassinato de seu professor, o que levou ao fim do projeto social do qual participava. Na adolescência, a necessidade de trabalhar cedo a afastou temporariamente da prática.
Formação Acadêmica e o Retorno à Capoeira
Aos 18 para 19 anos, Jussara ingressou no curso de Educação Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na instituição, que continha a disciplina de capoeira na grade curricular, ela reencontrou a prática sob a orientação de mestres renomados da universidade, como Mestre Oscaranha (in memoriam), Mestre Baiano Anzol e Mestre Nilo. Jussara formou-se em Licenciatura Plena (turma de 1993.2 a 1997.2), especializando-se na área aquática (desporto).
Após se formar, passou a dar aulas de natação e hidroginástica em academias, escolas e clubes em bairros como Jacarepaguá, Madureira e Abolição. O retorno definitivo à capoeira aconteceu após o convite de um estagiário para assistir ao seu batizado de capoeira na escola Alfa 100, em Jacarepaguá. Impactada pela energia do evento, Jussara decidiu voltar a treinar e conheceu aquele que seria o seu mestre formador: Mestre Espiga (João Pancha Jardim), na academia Rio Swing, na Praça Seca.
Trajetória de Graduação e Transição Pedagógica
Conciliando a rotina de mãe de um filho pequeno com a de aulas de natação no SESC de Madureira, Jussara manteve-se constante nos treinos. Graduou-se nas cordas amarela, laranja, azul, vermelha, azul/verde e roxa. Percebendo seu potencial para o ensino, Mestre Espiga passou a direção das aulas da academia para ela. Com o tempo, a capoeira passou a ocupar um espaço central em sua vida, fazendo com que ela deixasse o cargo de coordenação de natação e hidroginástica no SESC. Em 2003, ingressou como funcionária pública (professora de Educação Física) no município do Rio de Janeiro.
A vivência na capoeira transformou profundamente sua prática pedagógica. Mestra Jujuba distanciou-se do modelo de educação física escolar tradicional – que considera eurocentrado e tecnicista – passou a adotar uma pedagogia holística, baseada na circularidade, na musicalidade e nos valores civilizatórios afro-brasileiros (conceito referenciado na obra de Azoilda Loreto Trindade). Para ela, a capoeira tornou-se uma tecnologia de ensino que integra corpo, mente e alma.
Atuação Escolar e Projetos Culturais
Como professora municipal, Jussara atua em um projeto de extensão no contraturno escolar, ministrando oficinas de capoeira para crianças de 6 a 11 anos. Em outras escolas, desenvolve o projeto “Africanidade”, trabalhando capoeira, maculelê, ciranda e jongo. A partir dos estudos de Azoilda Loreto Trindade, passou também a trabalhar com literatura para a infância e contação de histórias, estruturando sua pedagogia no tripé: oralidade, corporeidade e vivência na roda.
O Ponto de Cultura Ubentem
Em 2022, Jussara formou-se oficialmente como Mestra de Capoeira. Durante a pandemia de COVID-19, em 2020, ela se desligou das academias onde prestava serviços autônomos. Em setembro daquele ano, foi convidada a utilizar um espaço cedido na Rua Albano, nº 100, na Praça Seca. Com recursos próprios e a ajuda de seu marido, reformou o local para dar continuidade às aulas.
Esse espaço consolidou-se como o Ponto de Cultura UBEMTEM, ligado à escola de capoeira “Capoeira Vem Camarada” (fundada por Mestre Espiga). O UBEMTEM atende gratuitamente crianças da rede pública de ensino (especialmente da comunidade da Chacrinha/Bateau Mouche) e cobra mensalidades de alunos da rede privada para cobrir os custos, dividindo os lucros igualmente com a proprietária do imóvel. Para as famílias que não podem pagar, Mestra Jujuba aceita contribuições simbólicas em materiais de limpeza, garantindo que nenhuma criança seja excluída, desde que haja o acompanhamento e a coparticipação da família e da comunidade no processo educativo.
O Ponto de Cultura UBEMTEM atua com foco em cultura e educação, além de promover ações ligadas a conhecimentos tradicionais, direitos humanos, juventude, economia criativa, literatura, memória e patrimônio. O público atendido é majoritariamente composto por pessoas negras, mulheres, crianças, jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade social ou vítimas de violência.
Vida Pessoal, Identidade e Convicções
Mestra Jujuba é casada, mãe de um filho de 27 anos (que trabalha como cozinheiro) e reside em uma casa de alvenaria com sua família (quatro pessoas no total). Identifica-se como parda para fins de registro do IBGE, mas se afirma como uma mulher negra dentro da luta do movimento social, reconhecendo os desafios do racismo estrutural e da colorimetria no Brasil.
Originalmente batizada na Igreja Católica, a Mestra migrou para as religiões de matriz africana por identificação com o culto. Diante de situações de preconceito e agressão sofridas no ambiente de trabalho, buscou fortalecer-se por meio do estudo, do conhecimento e da união com seus pares. Atualmente, além de sua atuação como mestra e professora, Mestra Jujuba está ingressando no mestrado acadêmico, onde pesquisa como o neoliberalismo captura e mercantiliza a cultura popular sem reconhecer devidamente os seus fazedores tradicionais.
Em escolas, desenvolve o projeto “Africanidade”,
trabalhando capoeira, maculelê, ciranda e jongo.
O Ponto de Cultura Ubentem
atende gratuitamente crianças da rede pública de ensino.
Trabalha com literatura para a infância e contação de histórias, estruturando sua pedagogia no tripé:
oralidade, corporeidade e vivência na roda.
No mestrado acadêmico,
pesquisa como o neoliberalismo captura e mercantiliza a cultura popular sem reconhecer devidamente os seus fazedores tradicionais.