Mestra Creuza

Fotos: Maria Buzanovsky


Raízes e
Infância Criativa

Nascida e criada em uma atmosfera de profunda efervescência cultural e religiosa, Creuza Maria Pereira (Mestra Creuza) herdou de seus pais o amor pelas tradições populares. Sua infância na roça foi marcada pelas procissões religiosas em tempos de seca, onde se rezava coletivamente pedindo por chuva, e pelo som da Folia de Reis. Esta manifestação era liderada por seu pai e celebrada em sua casa, que também abrigava times de futebol locais e recebia parentes e foliões do Morro da Mangueira (RJ), como o seu tio Sebastião.

Desde os seis anos de idade, a pequena Creuza demonstrou um manejo nato e uma sensibilidade aguçada para moldar o mundo ao seu redor. Diante da escassez ou simplesmente pela pulsão de inventar, transformava o que a natureza oferecia em brinquedos: criava chinelos a partir do tronco da bananeira, esculpia bonecos e pequenos carros de boi em madeira, emoldava bichinhos e panelas utilizando o barro. Aos dez anos, mudou-se para a cidade, carregando consigo a inquietude artística e a herança cultural de sua família.


A Mestria da Fibra e o Reconhecimento no Artesanato

Com uma trajetória que já soma mais de meio século do fazer artesanal, Mestra Creuza especializou-se no manejo da fibra da bananeira. Através de tramas, trançados e revestimentos inovadores, ela transforma a matéria-prima em uma infinidade de peças utilitárias e decorativas, como bolsas, painéis e abanadores personalizados, requisitados até mesmo para casamentos em pleno verão fluminense.

Sua atuação foi fundamental para a consolidação do artesanato na região. Ela foi uma das fundadoras da Associação de Artesãos de Miracema (Casa do Artesão), instituição onde atua há mais de 20 anos e que hoje conta com um calendário quinzenal fixo de exposições na praça da cidade. Além da fibra da bananeira, sua criatividade abrange a bucha vegetal, podas de árvores urbanas que resgata para esculpir bonecos, e o tradicional artesanato em barro.

Sua expertise a levou a circular por diversos municípios, expondo e comercializando suas obras. Como detentora de um saber-fazer singular, atuou como instrutora em cursos e oficinas promovidos por órgãos de relevância técnica e econômica, como o Sebrae, Senar, Emater e secretarias municipais de Agricultura, aplicando sua arte em áreas rurais, fazendas e sítios.


Ervas Medicinais, Assistência Social e Carnaval: Uma Vida em Movimento

A atuação de Mestra Creuza ultrapassa as barreiras do artesanato. Detentora de um vasto conhecimento sobre a medicina tradicional, ela cultiva uma horta de ervas fitoterápicas em seu terreno, compartilhando mudas, receitas de chás e banhos gratuitamente com quem a procura. Esse saber também é levado por ela ao Centro de Convivência do Idoso, espaço onde participa ativamente de atividades, viagens e dinâmicas de socialização.

Sua dedicação ao bem-viver coletivo também se refletiu de forma marcante na infância e juventude de Miracema. No passado, fundou e liderou em sua própria casa o Grupo Recreativo Nossa Rua, uma iniciativa de forte impacto social que acolhia mais de 20 crianças da comunidade. Ali, Mestra Creuza oferecia aulas particulares, promovia competições de corrida rústica, organizava festas de fim de ano e articulava oficinas de bordado, ponto cruz e crochê, com o apoio de outras artesãs. Mais do que ensinar técnicas manuais, exercia um papel de suporte psicológico e pedagógico, ensinando valores sobre família e convivência.

Em paralelo, envolveu-se de corpo e alma no Carnaval local. Com gingado e samba no pé, destacou-se como passista e madrinha da Escola de Samba Santa Teresa, agremiação que, durante cinco anos consecutivos, conquistou o vice-campeonato na cidade. Também colaborou com a confecção de indumentárias, adereços e miniaturas de bois pintadinhos para o cortejo cultural.


Legado à Salvaguarda do Patrimônio Imaterial

Hoje, vinculada também às ações do Associação Grupo Sociocultural Cara da Rua, Mestra Creuza é uma referência de salvaguarda do patrimônio imaterial. Seja na praça comercializando sua arte, na terra cultivando o alimento e a cura, ou nos espaços formativos repassando seu legado às novas gerações, sua vida é o reflexo de uma mente que nunca para de criar e de um coração permanentemente voltado à alegria de viver na sua comunidade.