Mestra Célia

Fotos: Maria Buzanovsky


Origens e
Inspiração Paterna

A história de Mestra Célia, trancista tradicional, cabeleireira afro e esteticista identitária, está salvaguardada na memória coletiva do bairro Santo Agostinho, em Volta Redonda, onde reside há 70 anos. Filha de uma das primeiras famílias a se estabelecerem na localidade, ela e sua mãe partilham o título de moradoras mais antigas da região. Sua inserção no universo dos cuidados capilares deu-se ainda na infância, observando o trabalho de seu pai, o primeiro barbeiro a atuar no bairro.

Fascinada pelas ferramentas e pelo movimento do ofício paterno, a menina Célia esgueirava-se em segredo para mexer nos materiais de barbearia e arriscar os primeiros cortes no cabelo de sua irmã. Essa admiração de infância moldou sua vocação e tornou-se a semente de uma longa jornada profissional e artística voltada para a estética negra e para o acolhimento.


Meio Século de Mestria nas Tranças e Cuidado Afro

DCom uma trajetória sólida que já soma 50 anos de experiência, Mestra Célia consolidou-se como uma pioneira na arte das tranças na região. Para além do domínio prático e intuitivo, buscou a formação técnica como cabeleireira para compreender a fundo as especificidades e a saúde do biotipo do cabelo crespo e cacheado.

Em uma época na qual o alisamento químico era a única alternativa socialmente aceita – processo que, embora legítimo por escolha, muitas vezes apagava a textura natural dos fios –, Mestra Célia caminhou na contramão. Ela transformou o seu ofício em um ato de valorização e resgate da identidade negra, ensinando suas clientes e pupilas a reconhecerem a potência de suas coroas. Para a Mestra, o cabelo é o elemento central de um conjunto que define a dignidade e a beleza de uma pessoa.

Sua dedicação transformou-se em legado educacional: ao longo de cinco décadas, formou inúmeras alunas (os) em Volta Redonda, espalhando suas “crias” pelo mercado da beleza afro e gerando autonomia financeira para outras mulheres. O amor pelo manejo dos cabelos também frutificou dentro de casa, e hoje sua filha e seu filho trabalham ao seu lado, perpetuando a tradição familiar que começou na antiga barbearia de seu pai.


Legado e
Identidade

Referência de ancestralidade e resistência em Volta Redonda, Mestra Célia enxerga o ato de trançar e embelezar como uma missão de vida. Suas mãos, que há meio século desenham tramas e resgatam a autoestima de sua comunidade, continuam ativas, mantendo viva a história de sua família e fortalecendo a identidade da cultura negra no Sul Fluminense.