Uma Trajetória de uma respeitada liderança religiosa e mestra de saberes tradicionais.
Fotos: Maria Buzanovsky
Sob sua liderança espiritual, o terreiro consolidou-se como um polo de atuação social voltado à comunidade, articulando projetos estruturantes que visam a inclusão, a saúde mental e o combate às opressões.
Raízes, Fé e Afetividade Familiar
A trajetória de Mãe Célia é profundamente alicerçada em uma infância rica em solidariedade, fé e manifestações culturais. Nascida em um lar de intensas lutas e profundas alegrias, cresceu em uma família numerosa de dez irmãos. Seu pai era trabalhador da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e músico. Tocava acordeon e violão, enquanto sua mãe cantava e lavava roupa para fora para complementar o sustento da casa.
A ancestralidade e o chamado para o cuidado com o outro manifestaram-se cedo através de sua avó materna, uma conhecida benzedeira católica procurada por uma vasta vizinhança em busca de cura e auxílio espiritual. Criada sob os preceitos da Igreja Católica, religião que professou até os 18 anos, Mãe Célia vivenciou uma rotina onde as portas de sua casa estavam sempre abertas. O espírito comunitário de seus pais fazia com que a mesa estivesse constantemente cheia de agregados, estabelecendo desde cedo sua compreensão sobre o acolhimento e a vivência coletiva.
O Encontro com a Umbanda e a Vocação Espiritual
Aos 18 anos, após realizar a primeira comunhão e cumprir os ritos católicos, o destino de Célia transformou-se ao aceitar o convite de uma amiga para visitar um terreiro de Umbanda. Ao cruzar o limiar daquele espaço sagrado, sentiu uma conexão imediata e arrebatadora – diz, reconhecendo ali o seu verdadeiro caminho e propósito de vida. Com determinação e o respeito de sua família, iniciou sua transição e dedicação integral à espiritualidade de matriz africana, trilhando uma caminhada que a consolidaria como uma respeitada liderança religiosa e mestra de saberes tradicionais.
O Terreiro como Espaço de Cura, Resistência e Transformação Social
Para Mãe Célia, o terreiro transcende a ritualística sagrada e litúrgica: trata-se de um território fundamental de resistência, educação, acolhimento e direitos. Sob sua liderança espiritual, o terreiro consolidou-se como um polo de atuação social voltado à comunidade, articulando projetos estruturantes que visam a inclusão, a saúde mental e o combate às opressões.
Entre as principais iniciativas desenvolvidas no espaço, destacam-se
(a) o Grupo das Marias: um coletivo dedicado ao universo e à temática feminina. Coordenado conjuntamente por uma psicóloga e uma assistente social, conta também com a orientação espiritual de uma entidade (Pombagira) ,oferecendo suporte e fortalecimento para as mulheres da comunidade; (b)Coletivo Que Querer: Projeto voltado a impulsionar as potencialidades da juventude. Atua de forma preventiva e educativa, oferecendo aos novos caminhos, perspectivas artísticas e sociais que buscam afastar crianças e adolescentes da vulnerabilidade e das garras do tráfico de drogas; (c)Sentinelas da Aldeia: Grupo voltado ao acolhimento e debate de pautas da comunidade LGBTQIA+, promovendo um ambiente seguro de convivência, orgulho e respeito às diversidades dentro e fora do terreiro; (d) Projeto Munthu: Iniciativa focada na educação etnocracias nos terreiros. Desenvolve uma pedagogia de terreiro voltada para a vida, combatendo o racismo religioso e estrutural e promovendo a valorização da herança civilizatória africana.
Legado
Guiada pela máxima de que “o terreiro cura”, a Mestra de Terreiro Mãe Célia dedica sua vida a costurar a sensibilidade espiritual herdada de suas antepassadas com uma prática política e social ativa. Sua atuação estende as mãos aos vulnerabilizados, transforma o solo sagrado em sala de aula e faz de sua liderança um farol de acolhimento e justiça social no cenário das culturas tradicionais.