UMA Trajetória que estende-se com vigor para além das paredes do terreiro
Fotos: Mariana Monteiro
Sua voz ecoa como um clamor por tolerância, pontuando com firmeza que as religiões e a sociedade como um todo precisam, acima de tudo, aprender a conjugar a palavra respeito.
Origens e o Berço em Madureira
Nascida e criada no coração de Madureira, um dos maiores efervescentes berços da cultura negra e da ancestralidade carioca, ela cresceu envolta pelas tradições e pelos tambores de uma família profundamente ligada às religiões de Matriz Africana. Seus primeiros passos espirituais foram dados no solo acolhedor da Umbanda, para mais tarde consolidar sua caminhada e dedicação no Candomblé.
Embora o destino já estivesse traçado pelo axé de seus antepassados, aceitar a própria ancestralidade não foi um processo simples. O amadurecimento espiritual exigiu tempo, autoconhecimento e coragem para romper barreiras internas e externas, acolhendo em plenitude a herança sagrada que corria em suas veias.
Atualmente, filha de santo da Mãe Neuza de Xangô, traz em sua essência a força e a ancestralidade de uma casa tradicional de matriz africana, (Ile Ase Nasso Oka – Terreiro da Casa Branca / Salvador BA), onde o matriarcado se ergue como alicerce sagrado, perpetuando-se com respeito, honra e devoção ao longo das gerações.
Mãe de seis filhos, sendo um deles acolhido e amado como fruto do coração, expressa em sua vida a mais pura forma de amor. Como Iyá, é também mãe de muitos filhos espirituais, a quem guia com sabedoria, acolhe com carinho e protege com a força de sua fé. Sua trajetória é um reflexo da união entre tradição e afeto, onde cada gesto carrega cuidado, cada palavra transmite ensinamento e cada passo reafirma sua conexão profunda com suas raízes e sua missão de amor e espiritualidade.
A Liderança Espiritual e o Axé de Oxum
Hoje, consagrada como Yalorixá (Mãe de Santo) e orgulhosa filha de Oxum – a orixá dona dos rios, das cachoeiras, do ouro, das cores douradas e amarelas, da fertilidade feminina e do amor – Mestra Marcia da Oxum comanda seu terreiro com retidão e sabedoria. Sob a égide de sua mãe Oxum, compreende que a sua missão vai muito além dos rituais e das obrigações internas. Sua voz ecoa como um clamor por tolerância, pontuando com firmeza que as religiões e a sociedade como um todo precisam, acima de tudo, aprender a conjugar a palavra respeito. Através do acolhimento em seu espaço sagrado, ela desmistifica preconceitos históricos e fortalece a identidade de tradição africana.
Militância e a Arte do Afoxé
Sua dedicação à cultura afro-brasileira estende-se com vigor para além das paredes do terreiro. Iya Maria Fiderioman, como dirigente e líder de Afoxé – o “candomblé de rua” -, ela ajuda a transbordar o sagrado para o espaço público em forma de música, dança, cores e ritmos cortantes. O afoxé, sob sua regência, torna-se uma celebração viva de resistência, beleza e orgulho negro.
Paralelamente à vida artística e religiosa, atua como uma ferrenha militante pelas causas raciais e pela liberdade religiosa. Sua trajetória em Madureira é o retrato da mulher preta que transformou suas dificuldades iniciais em liderança comunitária, fazendo de sua fé a sua principal ferramenta de luta política e de transformação social.
Como dirigente e líder de Afoxé – o “candomblé de rua”
-, ela ajuda a transbordar o sagrado para o espaço público