Mestras e Mestres – Pontão de Cultura Ubuntu https://redeubuntu.org.br Valorizando Trajetórias, Preservando Memórias Fri, 24 Jul 2026 19:38:17 +0000 pt-BR hourly 1 https://redeubuntu.org.br/wp-content/uploads/2025/02/icon-rede-ubuntu-40x40.png Mestras e Mestres – Pontão de Cultura Ubuntu https://redeubuntu.org.br 32 32 Mestre Adriano https://redeubuntu.org.br/mestre-adriano/ Sun, 10 May 2026 11:34:00 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10407 Mestre Adriano

Mestre Adriano

Fotos: Maria Buzanovsky


Origens e a Trajetória na Capoeira: Da Volta Redonda à Costa Verde

Nascido em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, a jornada de Adriano Fábio da Guia – conhecido em toda a esfera cultural como Mestre Adriano – confunde-se com a história e a evolução da capoeira contemporânea no estado fluminense. Seus primeiros passos na arte da ginga foram dados no início da década de 1980, no histórico Grupo Palmares de Volta Redonda. Sob a tutela de Mestre Sandoval (que na época ostentava a graduação de Contra-Mestre Negretinho), Adriano treinou intensamente por seis anos, período no qual absorveu os fundamentos da disciplina e foi graduado como professor.

Movido por uma inquietação artística e pelo desejo de aprofundar seus conhecimentos práticos e teóricos, Adriano aproximou-se do renomado Grupo Senzala. Sua transição deu-se por intermédio de Mestre Abutre, um dos discípulos de Mestre Peixinho, que coordenava um núcleo do Senzala no município de Angra dos Reis. Fiel à sua nova bandeira, consolidou sua maturidade na arte e foi consagrado com a prestigiada corda vermelha pelas mãos de Mestre Tony Vargas.

Dotado de uma visão crítica e consciente sobre a tradição, Mestre Adriano costuma pontuar que a corda vermelha funciona apenas como uma espécie de “diploma acadêmico”, mas que a verdadeira mestria não é outorgada por uma instituição: ela é forjada pelo próprio capoeirista através de suas ações e de seu reconhecimento perante a sociedade.


O Acidente e a Reinvenção do Agente Cultural

Ao longo de quase quatro décadas, Mestre Adriano dedicou sua vida integralmente à docência e ao fomento da capoeira. Contudo, há cerca de quatro anos, sua rotina de atividades físicas foi severamente interrompida por um grave acidente. O ocorrido afastou-o das rodas e resultou em sua aposentadoria por incapacidade junto ao INSS.

Diante das limitações impostas pela nova realidade física, Adriano iniciou um profundo processo de autocrítica e reinvenção pessoal. Compreendendo que sua maturidade intelectual e seu vasto repertório patrimonial permanecem intactos, ele busca se reposicionar no cenário fluminense não mais como um atleta de frente, mas como um pensador e articulador cultural de base. Sua atuação estende-se de forma plural por toda a Costa Verde, mantendo conexões estreitas e respeitadas com as manifestações de Cirandas, Folias de Reis, comunidades quilombolas, caiçaras e aldeias indígenas locais.


Letramento Racial, Memória Genealógica e Crítica ao Sistema

Para Mestre Adriano, “a cultura popular desempenha um papel pedagógico urgente e emancipatório, funcionando como uma contra-narrativa à história oficial ensinada nos colégios tradicionais”, a qual ele acusa de promover o apagamento sistemático da identidade dos povos originários e afro-brasileiros. Ecoando os versos tradicionais da Ciranda fluminense – “Quem procura o que não conhece, quando encontra não reconhece”, o mestre adverte sobre os perigos do vazio de direção e do distanciamento da ancestralidade.

Adriano defende que a verdadeira história e o propósito de um indivíduo estão salvaguardados em sua informação e herança genealógica. De acordo com suas reflexões – fortemente influenciadas por conceitos da filosofia budista, religião com a qual se identificou na adolescência e cujos princípios de herança ancestral trouxe para o seu fazer cultural –, cada ser humano carrega em seu DNA o registro de centenas de antepassados que se amaram ou se odiaram. Compreender esse emaranhado de memórias biológicas, para o mestre, é a chave para pacificar os conflitos internos do homem contemporâneo.


A Liga Afro-Brasileira
e a Gestão Coletiva

Buscando profissionalizar e dar vazão institucional às demandas das culturas tradicionais da Costa Verde, Mestre Adriano fundou a Liga Cultural Afro-Brasileira, uma associação jurídica sem fins lucrativos que funciona como a instituição mãe de suas ações. A partir da Liga, o gestor gerencia e capitaneia dois importantes projetos de relevância regional chancelados como Pontos de Cultura: a Arena Cultural da Ilha Grande e o Ponto de Cultura Tradicional da Costa Verde.

Apesar de reconhecer a necessidade de se manter em conformidade com as normas burocráticas impostas pelo sistema para captar recursos, Adriano aponta os frequentes conflitos existentes entre a rigidez administrativa estatal e as pedagogias tradicionais, citando como exemplo o choque comum entre os estatutos associativos ocidentais e a liderança soberana dos Caciques dentro das aldeias indígenas.

Atualmente, sem uma sede física própria para centralizar as atividades – que são executadas em regime itinerante através de parcerias com escolas públicas, casas de cultura e associações de moradores –, a Liga Cultural Afro-Brasileira encontra-se sediada juridicamente na residência própria onde Adriano reside com sua família no Morro do Moreno, no distrito de Jacuecanga, em Angra dos Reis. O território, caracterizado por restrições de infraestrutura pública e conflitos socioambientais decorrentes de legislações de conservação ambiental que barram o acesso à água encanada e ao saneamento básico, reflete a realidade das comunidades periféricas cuidadas pelo mestre.


Transmissão de Saberes e Legado

Como gestor e produtor de sua instituição, Adriano coordena uma equipe diretiva e executiva de caráter totalmente voluntário. Sob sua liderança, a Liga desenvolve projetos multidisciplinares que englobam a produção de documentários audiovisuais, apresentações musicais, espetáculos teatrais populares e projetos esportivos de canoagem em uma escola náutica comunitária. A excelência e a resiliência de seu trabalho renderam à instituição importantes apoios de fomento nos últimos anos, incluindo premiações via editais históricos da Lei Aldir Blanc, como o Prêmio Asa.

Nas rodas de capoeira, Mestre Adriano refinou uma sensibilidade aguçada e sinérgica para ler os corpos e as expressões emotivas de seus alunos. Ele defende que o verdadeiro educador deve ir além da técnica física, sendo capaz de decifrar a aura e o estado de espírito do praticante para acolhê-lo em suas vulnerabilidades.

Aos 56 anos de idade, casado e pai de dois filhos – incluindo seu caçula de 12 anos que segue seus passos nos estudos –, Adriano Fábio da Guia desconstrói cotidianamente os resquícios de uma educação machista na qual foi criado. Fazendo de sua Liga e de sua corda vermelha trincheiras contra o esvaziamento existencial da juventude, sua biografia consolida-se como um farol de resistência pluricultural na Costa Verde fluminense.

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Quilombola Altair Barreto https://redeubuntu.org.br/quilombola-altair-barreto/ Sun, 12 Jul 2026 15:10:44 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10675 Quilombola Altair Barreto

Quilombola Altair Barreto

Fotos: Mariana Monteiro


Origens e Conexão Ancestral no Quilombo Maria Romana

Altair Barreto é quilombola e uma das vozes proeminentes da comunidade do Quilombo Maria Romana, localizado no segundo distrito rural do município de Cabo Frio, na Região dos Lagos fluminense. Criado sob os pilares da ancestralidade e da convivência harmoniosa com a terra, Altair traz consigo a bagagem cultural e os saberes tradicionais que foram transmitidos de geração em geração desde a chegada de seus antepassados à região.

Para Altair, ser quilombola vai muito além de residir em um território delimitado; significa atuar como um guardião ativo da história afro-brasileira e da biodiversidade. Ele destaca com orgulho que o conhecimento quilombola sobre a natureza, que se fundiu historicamente aos saberes dos povos indígenas locais, permanece vivo no cotidiano do quilombo através do uso de raízes, chás e ervas medicinais, práticas hoje reconhecidas pela ciência como fitoterapia.


A Revolução Socioeconômica através da Cooperquilombo

A trajetória do Mestre Altair ganhou um contorno de forte liderança econômica e comunitária ao integrar e impulsionar os trabalhos da Cooperquilombo (Cooperativa de Quilombos). A organização nasceu com a missão urgente de estruturar, valorizar e escoar a produção das famílias quilombolas da zona rural de Cabo Frio, que historicamente ficavam restritas à agricultura de subsistência por falta de acesso ao mercado consumidor local.

Sob a articulação da cooperativa, os pequenos produtores tradicionais transformaram a terra e a criatividade em um meio de vida sustentável, garantindo autonomia financeira e geração de renda fixa. Altair enfatiza o impacto profundo dessa transformação no cotidiano das mulheres quilombolas da região: “Muitas mulheres viviam na comunidade dependendo exclusivamente de seus esposos. Hoje, elas produzem seus próprios artesanatos, desenvolvem projetos lindos e os vendem diretamente na feira, conquistando sua independência”.

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Salvaguarda Cultural e o Encontro com a Cidade

Atualmente, as ações lideradas pelo Mestre Altair e pela Cooperquilombo ganham visibilidade no espaço urbano de Cabo Frio, especialmente por meio da exposição e venda de alimentos hortifrúti e peças de artesanato no Horto Municipal. Essas feiras e espaços de comercialização tornaram-se vitrines culturais onde o público em geral pode entrar em contato direto com os traços identitários, as artes visuais, os desenhos e a oralidade do povo quilombola.

Ao consolidar a ponte entre o campo tradicional e a cidade, Altair Barreto cumpre o papel de manter firme o legado de resistência de seus ancestrais. Seu trabalho não apenas assegura a sobrevivência econômica de dezenas de famílias do Quilombo Maria Romana, mas também reinsere a história afro-brasileira como pilar fundamental e indissociável da identidade cultural e ambiental do município de Cabo Frio.

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Mestre Amaral Arte https://redeubuntu.org.br/mestre-amaral/ Sat, 11 Jul 2026 21:32:44 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10447 Mestre Amaral Arte

Mestre Amaral Arte

Fotos: Maria Buzanovsky


Força Ancestral
do Sangue

A trajetória de José Gomes do Amaral Filho, conhecido em toda a Baixada Fluminense e no circuito artístico como Amaral Arte, é um testemunho de profunda sinergia étnica e ancestral. Nascido em uma família com raízes plurais, Mestre Amaral descende de uma linhagem cigana (seu bisavô era de etnia Calon) e indígena (sua avó materna, originária de Recife, Pernambuco). Sua mãe migrou de Recife para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades e casou-se com seu pai, um homem negro. Dessa união afro-indígena e cigana nasceu a essência criativa desse Mestre.

Seu nome artístico é uma homenagem direta e afetiva ao pai, em memória de sua força e trajetória de vida. A arte, conforme o próprio mestre relata, sempre esteve presente em seu DNA. Ele representa a quarta geração de sua família na arte do entalhe em madeira, uma tradição que remonta ao seu avô no Nordeste que, em seu sítio, moldava a madeira de forma manual e presenteava a todos os visitantes com esculturas, transformando o fazer artístico em um ato de troca e acolhimento.


A Caminhada Profissional: do Desenho Comercial à Cenografia no Projac

Desde a infância e o ensino primário, as expressões visuais acompanharam os passos do Mestre Amaral. Na juventude, buscou aperfeiçoamento técnico e formou-se em Desenho Livre, Desenho Artístico e Publicitário. Essa bagagem abriu as portas para que ele ingressasse na escola de cenografia e atuasse profissionalmente no Projac (atual Estúdios Globo).

Nos bastidores da televisão, ele expandiu significativamente seu repertório plástico. Foi nesse ambiente que se aprofundou nas técnicas de cenografia e conheceu de perto o grafite e a aerografia (conhecida como airbrush, técnica tridimensional com uso de microcaneta e ar comprimido). Dominando a aerografia, Mestre Amaral inovou ao substituir os pincéis tradicionais pelas telas grafitadas, projetando rostos e imagens com fidelidade realista. No entanto, o desejo latente de resgatar o legado familiar e esculpir diretamente na madeira continuava vivo em suas metas.


O Entalhe Africano, a Depressão e a Militância Contra a Intolerância

Ao assumir as ferramentas manuais para dar vida à arte sacra e ao entalhe africano, produzindo máscaras, estatuetas e símbolos históricos, Mestre Amaral enfrentou um dos maiores desafios de sua carreira: o preconceito e a ignorância estrutural. Em virtude do racismo religioso e do etnocentrismo que valida apenas a arte sacra de matriz europeia no Brasil, muitas de suas esculturas de matriz africana foram erroneamente associadas ao demônio.

Essa discriminação sistemática levou o artista a um severo quadro de depressão, fazendo com que ele se afastasse das feiras públicas por um longo período, passando a produzir apenas de forma reclusa, dentro de sua própria residência, para presentear amigos próximos. Em um desses episódios marcantes de intolerância sofridos em uma feira, o mestre chegou a desmontar sua barraca em estado de choque após ter suas obras publicamente hostilizadas por líderes religiosos locais.

Sua recuperação transformou-se em combustível para a militância cultural. Hoje, Mestre Amaral dedica sua voz e seu cinzel para combater essa demonização, defendendo que a arte africana é patrimônio histórico e estético da humanidade. Sua missão foca na educação, levando exposições e oficinas para escolas municipais, estaduais e ONGs, demonstrando que a identidade brasileira está integralmente conectada às raízes dos 54 países do continente africano.

Em 2019, idealizou a exposição Povo de Nossa Terra, composta por dez telas com retratos de povos indígenas. Atualmente, desenvolve uma mostra com mais de dez itens inspirados em grandes figuras e símbolos africanos, incluindo a célebre escultura O Pensador de Caxito (conhecida em sua pesquisa como Soyananga) e instrumentos ancestrais raros, como a Kora (instrumento de cordas com vestígios que remontam a 1.300 anos antes de Cristo).

Sua mais recente exposição, intitulada África, Ancestralidade e Arte, teve sua abertura realizada no CIEP 441 – Bairro Maria Conga, em Magé. O evento, construído em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reuniu estudantes e professores em uma semana dedicada à valorização da memória africana através da oralidade e do contato direto com as peças. Foi nessa ocasião que os coordenadores do Pontão de Cultura Ubuntu tiveram o primeiro contato com esse Mestre.


O Sacerdócio e a Ação Social no Templo Acamária Sim

Com quase 40 anos de dedicação autônoma à cultura, abdicando do regime de trabalho tradicional para viver de sua vocação, Mestre Amaral também atua de forma proeminente na esfera espiritual. Ele é sacerdote do Templo Espiritualista Acamária Sim, uma casa de culto às tradições de Umbanda e nação Angola (sendo bisneto espiritual de Joãozinho da Gomeia, um dos maiores baluartes do candomblé brasileiro). O mestre faz uma distinção clara entre suas funções: veste os trajes e os preceitos sagrados dentro do terreiro, mas porta-se como o cidadão João no cotidiano, exigindo respeito a ambas as facetas.

Cerca de 50% de sua produção artística atende ao nicho religioso das casas espíritas. No templo, localizado em Piabetá, Magé – região rica em territórios tradicionais e históricos –, ele e sua esposa coordenam um trabalho de forte impacto comunitário, prestando acolhimento psicológico, aconselhamento por meio da arte e auxílio material. Através desse suporte social, o mestre orgulha-se de ter ajudado diversas pessoas a superarem a dependência química e o alcoolismo, devolvendo-lhes qualidade de vida.

O espaço do terreiro e de sua residência própria passa atualmente por reformas estruturais para a inclusão de acessibilidade física (rampas e corrimãos) e metodológica (abordagens pedagógicas inclusivas). O plano do mestre é inaugurar um ateliê cultural totalmente independente da área de culto religioso, criando um polo neutro para receber oficinas e outros profissionais, protegendo os alunos de quaisquer barreiras de discriminação.


Reconhecimento
e Legado

Apesar de relatar as dificuldades crônicas de financiamento e a falta de reconhecimento e incentivo por parte do poder público municipal em sua atual localidade, Mestre Amaral é amplamente reverenciado no estado e em municípios vizinhos, como Duque de Caxias, onde teve projetos aprovados por editais como a Lei Aldir Blanc.

Seu profundo conhecimento prático e teórico, sua ancestralidade cigana e sua contribuição à diversidade étnica do estado foram homenageadas com uma Moção de Reconhecimento pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). Aos 54 anos de idade, pai de dois filhos (sendo um deles músico percussionista), Mestre José Gomes do Amaral Filho personifica a união entre a destreza manual e o letramento cultural. Fazendo de cada pedaço de madeira um manifesto contra o apagamento histórico, sua biografia consolida-se como um farol de resistência afro-indígena e cigana na Baixada Fluminense.

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Mestre Bororó https://redeubuntu.org.br/mestre-bororo/ Sat, 11 Jul 2026 23:16:29 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10508 Mestre Bororó

Mestre Bororó

Fotos: Maria Buzanovsky


Origens e o Batismo
no Carnaval da Saúde

A longa e expressiva trajetória de João Carlos Basílio da Silva, o Mestre Bororó, no universo da cultura popular urbana carioca teve início no ano de 1982. Com apenas 14 anos de idade, o jovem João Carlos ingressou no Bloco Coração L.M.S., uma agremiação genuína e tradicional do histórico bairro da Saúde, região da Zona Portuária do Rio de Janeiro que hoje muitos conhecem e reverenciam como Gamboa.

Atuando inicialmente como ritmista na ala dos repiques, João Carlos encontrou no asfalto e na pulsação do Carnaval a sua porta de entrada para o ecossistema cultural. Aquela vivência juvenil na efervescência portuária foi o estopim para que ele despertasse sua consciência sobre a riqueza das manifestações tradicionais do país e reconhecesse o valor histórico e ancestral de ser um legítimo originário desta terra.


A Ascensão no Samba e a Missão de Vigário Geral

O amadurecimento e a dedicação ao samba levaram João Carlos a assumir postos de alta responsabilidade e liderança na engrenagem do Carnaval carioca. Sua caminhada consolidou-se na passarela e nos bastidores dos desfiles oficiais, conduzindo-o ao posto de vice-presidente do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Vigário Geral, pavilhão tradicional da Zona Norte da cidade no qual se encontra ativo até os dias de hoje, defendendo a resistência cultural e a alegria da comunidade através do Carnaval.


A Sede Própria e a Fundação do Bloco Coração das Meninas

Movido por um desejo profundo de expandir sua atuação para além da folia sazonal e engajando-se com a herança afro-indígena, João Carlos compreendeu a urgência de estabelecer um território fixo de salvaguarda. Decidido a costurar a cultura de rua ao acolhimento social, ele alugou – sob um custoso esforço pessoal – um amplo espaço físico. Nessa sede, estabeleceu as bases da nova associação cultural e bloco carnavalesco Coração das Meninas, transformando o local em uma trincheira de preservação e um ponto de encontro comunitário permanente.


O Ponto de Cultura
Kwê-Pororó

Dentro da estrutura da sede do bloco Coração das Meninas, João Carlos fundou o Ponto de Cultura Kwê-Bororó, um centro de pertencimento e resistência afro-indígena nascido da necessidade latente de unificar a ação social e as matrizes tradicionais. O nome do espaço reflete perfeitamente o sincretismo de suas crenças e propósitos: imoró, termo oriundo das tradições pretas e do candomblé, que designa a casa do sagrado, a casa da ancestralidade e o local onde se guardam as memórias e os fundamentos sagrados; e bororó, vocábulo derivado das línguas dos povos nativos e originários que significa o pátio da aldeia.

Ao conceber o Kwê-Bororó, Mestre João Carlos ergueu uma “aldeia-terreiro” urbana destinada a abrigar e espalhar o conhecimento dos mais velhos. Na dinâmica do espaço, o mestre exerce uma pedagogia circular. Ao mesmo tempo em que lidera e ensina, coloca-se permanentemente na postura de eterno aprendiz diante dos anciãos e detentores de saberes que cruzam as portas do centro cultural.


Oficinas Gratuitas e a Cozinha Comunitária

O Ponto de Cultura destaca-se como um polo transformador e de inclusão na comunidade, oferecendo uma grade abrangente de oficinas formativas e artísticas direcionadas à população, totalmente gratuita. Entre as atividades desenvolvidas sob a sua gestão e fomento, destacam-se as oficinas: de Capoeira de Angola; Dança Afro-brasileira; Percussão de Atabaques (focada em toques de guerra, candomblé e teoria de santo); Percussão voltada para Escola de Samba (com turmas mistas e exclusivas para mulheres); e Cavaquinho e Violão (direcionadas especialmente para o protagonismo feminino).

Buscando o bem-estar integral e a dignidade de sua comunidade, Mestre Bororó acoplou à infraestrutura cultural uma expressiva Cozinha Comunitária. O projeto atua ativamente no combate à vulnerabilidade e à insegurança alimentar, servindo diariamente 280 refeições completas, de segunda a sexta-feira, para os moradores e alunos do entorno.


Legado de
Resistência

Financiando os altos custos de manutenção da sede por meio de desdobramentos e parcerias, Mestre Bororó personifica o operário da cultura viva carioca. Sua biografia é o testemunho de um jovem que começou tocando repique no asfalto da Gamboa e transformou sua maturidade em um farol de resistência, fazendo do pátio de sua aldeia um solo sagrado de cura, música, alimento e celebração da identidade afro-indígena brasileira.

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Mestre Dauá Puri https://redeubuntu.org.br/mestre-daua-puri/ Tue, 21 Jul 2026 14:32:18 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=11885 Mestre Dauá Puri

Mestre Dauá Puri

Fotos: Acervo Pontão de Cultura Ubuntu


Trajetória e
atuação

Dauá José da Silva é um mestre, escritor, historiador, contador de histórias, músico e jornalista indígena do povo Puri da região Sudeste. Sua trajetória é uma das principais referências contemporâneas na luta contra o apagamento da identidade e da memória dos povos originários fluminenses e na construção de espaços autônomos de museologia social no estado do Rio de Janeiro.


Origens e
Formação

Mestre Dauá traz em seu sangue a herança de resistência do território de Paraíba do Sul (RJ), sua terra natal. Seu avô, aos 13 anos de idade, fugiu para não ser escravizado, deixando na família a marca da palavra honrada e do compromisso com as origens. Sua caminhada na militância e na comunicação começou muito cedo, aos 11 anos de idade, trabalhando como jornaleiro no bairro de Jardim América, no Rio de Janeiro. Na juventude, ingressou no universo técnico e acadêmico, estudou técnica de jornalismo, cinema e segurança do trabalho. Nos anos 1970 e 1980, participou ativamente de marcos da cultura negra e popular no Rio, incluindo o primeiro encontro afro realizado na Cinelândia.

No ano de 2014, Dauá ingressou no ensino superior, graduando-se em Educação do Campo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em 2017. Seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), intitulado Cultura Indígena da Região Sudeste: Os Puri e Memória Iguará, reuniu um robusto acervo arqueológico, histórico e bibliográfico para fundamentar cientificamente a presença contínua do povo Puri no Sudeste, combatendo o discurso oficial de governantes da época que negavam a existência de populações indígenas originárias no território fluminense.


O Museu da Cultura
Puri

Em 2017, o fruto de sua pesquisa acadêmica e de campo levou o povo Puri para o Museu de Arte do Rio (MAR), integrando a histórica exposição de arte indígena contemporânea Dja Guata Porã. Diante do histórico descaso do Estado e do apagamento das memórias dessas exposições temporárias, Mestre Dauá Puri decidiu institucionalizar de forma independente a salvaguarda de seu povo.

Utilizando recursos de fomento da Lei Aldir Blanc e de editais estaduais voltados para Povos Tradicionais, o mestre realizou conquistas importantes. Gravou um disco em Paraíba do Sul, inserindo a língua Puri nas plataformas globais de streaming de áudio (como o Spotify) e comercializando o trabalho em formato físico (CD) para apoiar a causa. Criou o Museu da Cultura Puri, localizado em sua própria residência, no bairro do Estácio, região central e de alta complexidade do Rio de Janeiro, vizinha aos complexos de São Carlos e da Mineira (Rua Frei Caneca, 441). O espaço foi devidamente catalogado e reconhecido pelo Sistema Estadual de Museus do Rio de Janeiro (SBMC) sob o registro de número 026, além de estar em processo de cadastramento como Ponto de Memória junto ao Ibram e Ponto de Cultura.

O museu funciona de forma comunitária, contando com o apoio voluntário de cerca de oito colaboradores (majoritariamente estudantes universitários entre 20 e 30 anos, incluindo pessoas negras, mulheres e a comunidade LGBTQIAPN+). Desde a fundação, o local já atendeu mais de 2.200 visitantes, recebendo turmas de escolas públicas, universidades e grupos de terceira idade de Clínicas da Família para visitas agendadas às terças e quintas-feiras.

Os principais desafios enfrentados por Mestre Dauá Puri para a manutenção do Museu da Cultura Puri são de natureza financeira. A começar pelo fato do museu funcionar, atualmente, na sua residência (um apartamento do programa habitacional Minha Casa Minha Vida). Por ser um espaço residencial, há uma restrição que impossibilita um atendimento constante, gerando a necessidade de obter um espaço externo para realizar um atendimento condicional. Embora o local possa ser acessado por pessoas com deficiência, o museu não possui uma estrutura adequada de atendimento para esse público, carecendo de banheiro e acessos adaptados. O agendamento prévio das visitas (realizadas às terças e quintas) é necessário justamente em função da limitação da estrutura financeira para manter a funcionalidade básica do local, como o pagamento de internet.


Atuação, Saberes
e Desafios

A atuação de Dauá Puri desdobra-se em múltiplas linguagens artísticas e científicas, com destaque para a antropologia, arqueologia, literatura e música. O Mestre e seu coletivo oferecem oficinas de musicalização, contações de histórias tradicionais e palestras de conscientização em direitos humanos e preservação ambiental. Em termos de acessibilidade, o museu possui limitações estruturais em sua sede residencial (como a falta de banheiros totalmente adaptados), mas realiza atendimento e acolhimento inclusivo para pessoas com deficiência, registrando experiências bem-sucedidas com o público de deficiência visual.

Apesar do impacto pedagógico e do reconhecimento cultural de suas ações, o mestre ressalta que a escassez de recursos financeiros contínuos e a falta de um espaço físico externo e exclusivo continuam sendo as principais barreiras para a ampliação do Museu da Cultura Puri. Sua persistência mantém viva e pulsante a chama da identidade Puri no coração do Rio de Janeiro.

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Mestra Jujuba https://redeubuntu.org.br/mestra-jujuba/ Tue, 21 Jul 2026 13:55:34 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=11846 Mestra Jujuba

Mestra Jujuba

Fotos: Acervo Pontão de Cultura Ubuntu


Origem, Infância e Primeiros Passos na Capoeira

Jussara Santos Queirós é carioca, tem 52 anos e reside na cidade do Rio de Janeiro, no bairro da Praça Seca (região de Jacarepaguá), onde vive há 45 anos. Sua história com a capoeira começou ainda na infância. De forma escondida de sua família, que lhe dava dinheiro para aulas de violão, o qual ela utilizava para pagar as aulas de capoeira, Jussara iniciou-se na prática motivada pela identificação com a luta e pela necessidade de autodefesa, já que precisava proteger a si mesma e à sua irmã mais nova na comunidade onde morava. Esse início, entretanto, foi interrompido precocemente após o assassinato de seu professor, o que levou ao fim do projeto social do qual participava. Na adolescência, a necessidade de trabalhar cedo a afastou temporariamente da prática.


Formação Acadêmica e o Retorno à Capoeira

Aos 18 para 19 anos, Jussara ingressou no curso de Educação Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na instituição, que continha a disciplina de capoeira na grade curricular, ela reencontrou a prática sob a orientação de mestres renomados da universidade, como Mestre Oscaranha (in memoriam), Mestre Baiano Anzol e Mestre Nilo. Jussara formou-se em Licenciatura Plena (turma de 1993.2 a 1997.2), especializando-se na área aquática (desporto).

Após se formar, passou a dar aulas de natação e hidroginástica em academias, escolas e clubes em bairros como Jacarepaguá, Madureira e Abolição. O retorno definitivo à capoeira aconteceu após o convite de um estagiário para assistir ao seu batizado de capoeira na escola Alfa 100, em Jacarepaguá. Impactada pela energia do evento, Jussara decidiu voltar a treinar e conheceu aquele que seria o seu mestre formador: Mestre Espiga (João Pancha Jardim), na academia Rio Swing, na Praça Seca.


Trajetória de Graduação e Transição Pedagógica

Conciliando a rotina de mãe de um filho pequeno com a de aulas de natação no SESC de Madureira, Jussara manteve-se constante nos treinos. Graduou-se nas cordas amarela, laranja, azul, vermelha, azul/verde e roxa. Percebendo seu potencial para o ensino, Mestre Espiga passou a direção das aulas da academia para ela. Com o tempo, a capoeira passou a ocupar um espaço central em sua vida, fazendo com que ela deixasse o cargo de coordenação de natação e hidroginástica no SESC. Em 2003, ingressou como funcionária pública (professora de Educação Física) no município do Rio de Janeiro.

A vivência na capoeira transformou profundamente sua prática pedagógica. Mestra Jujuba distanciou-se do modelo de educação física escolar tradicional – que considera eurocentrado e tecnicista – passou a adotar uma pedagogia holística, baseada na circularidade, na musicalidade e nos valores civilizatórios afro-brasileiros (conceito referenciado na obra de Azoilda Loreto Trindade). Para ela, a capoeira tornou-se uma tecnologia de ensino que integra corpo, mente e alma.


Atuação Escolar
e Projetos Culturais

Como professora municipal, Jussara atua em um projeto de extensão no contraturno escolar, ministrando oficinas de capoeira para crianças de 6 a 11 anos. Em outras escolas, desenvolve o projeto “Africanidade”, trabalhando capoeira, maculelê, ciranda e jongo. A partir dos estudos de Azoilda Loreto Trindade, passou também a trabalhar com literatura para a infância e contação de histórias, estruturando sua pedagogia no tripé: oralidade, corporeidade e vivência na roda.


O Ponto de Cultura
Ubentem

Em 2022, Jussara formou-se oficialmente como Mestra de Capoeira. Durante a pandemia de COVID-19, em 2020, ela se desligou das academias onde prestava serviços autônomos. Em setembro daquele ano, foi convidada a utilizar um espaço cedido na Rua Albano, nº 100, na Praça Seca. Com recursos próprios e a ajuda de seu marido, reformou o local para dar continuidade às aulas.

Esse espaço consolidou-se como o Ponto de Cultura UBEMTEM, ligado à escola de capoeira “Capoeira Vem Camarada” (fundada por Mestre Espiga). O UBEMTEM atende gratuitamente crianças da rede pública de ensino (especialmente da comunidade da Chacrinha/Bateau Mouche) e cobra mensalidades de alunos da rede privada para cobrir os custos, dividindo os lucros igualmente com a proprietária do imóvel. Para as famílias que não podem pagar, Mestra Jujuba aceita contribuições simbólicas em materiais de limpeza, garantindo que nenhuma criança seja excluída, desde que haja o acompanhamento e a coparticipação da família e da comunidade no processo educativo.

O Ponto de Cultura UBEMTEM atua com foco em cultura e educação, além de promover ações ligadas a conhecimentos tradicionais, direitos humanos, juventude, economia criativa, literatura, memória e patrimônio. O público atendido é majoritariamente composto por pessoas negras, mulheres, crianças, jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade social ou vítimas de violência.


Vida Pessoal, Identidade e Convicções

Mestra Jujuba é casada, mãe de um filho de 27 anos (que trabalha como cozinheiro) e reside em uma casa de alvenaria com sua família (quatro pessoas no total). Identifica-se como parda para fins de registro do IBGE, mas se afirma como uma mulher negra dentro da luta do movimento social, reconhecendo os desafios do racismo estrutural e da colorimetria no Brasil.

Originalmente batizada na Igreja Católica, a Mestra migrou para as religiões de matriz africana por identificação com o culto. Diante de situações de preconceito e agressão sofridas no ambiente de trabalho, buscou fortalecer-se por meio do estudo, do conhecimento e da união com seus pares. Atualmente, além de sua atuação como mestra e professora, Mestra Jujuba está ingressando no mestrado acadêmico, onde pesquisa como o neoliberalismo captura e mercantiliza a cultura popular sem reconhecer devidamente os seus fazedores tradicionais.

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Mestra Sissi https://redeubuntu.org.br/mestra-sissi/ Tue, 21 Jul 2026 13:07:03 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=11828 Mestra Sissi

Mestra Sissi

Fotos: Maria Buzanovsky


Perfil Pessoal
e Origens

Juracy Maria da Silva, carinhosamente conhecida como Sissi, é uma mulher preta cisgênero, na faixa etária de 61 a 70 anos e natural do estado do Rio de Janeiro. Viúva e mãe, ela reside há mais de 11 anos em Santo Aleixo, no município de Magé. Com formação de Ensino Superior Incompleto, Juracy hoje é aposentada. Nascida na religião Católica, ela passou por uma transição espiritual para a Umbanda, embora atualmente não participe ativamente dos cultos.


Trajetória e
Saberes

Embora atue na área de Linguagens Artísticas e transmita saberes ligados ao Artesanato e à Capacitação, atuando como oficineira há mais de 20 anos, Mestra Sissi apresenta uma visão singular sobre si mesma: ela declarou que não se reconhece como artesã e não se reconhece como mestra. Essa percepção pode refletir a informalidade de sua prática ou a humildade diante de seus saberes.

Ela não possui e não faz parte de um coletivo cultural formalizado (sem CNPJ ou base comunitária estruturada), realizando suas atividades de forma independente na região de São José da Cachoeira (Magé). O contato com seu trabalho ou sua rede pode ser feito através de seu blog/site “Sissi.cobrinha”.


Contexto Socioeconômico, Saúde e Desafios

A principal fonte de renda de Juracy é sua aposentadoria, que garante uma renda familiar mensal entre 1 e 2 salários mínimos. Ela mora em uma casa própria de madeira, que avalia ter um bom estado de conservação. O abastecimento de água de sua residência provém de uma nascente, já que não há ligação com a rede geral.

A saúde é um ponto de atenção em sua vida. Lida com diabetes e transtornos mentais (neurodivergência) e enfrenta desafios significativos de infraestrutura e problemas sociais em sua comunidade. Relata que sofre com problemas de inundação em seu domicílio e classifica as vias de acesso como ruins. No âmbito comunitário, aponta como problemas muito graves a falta de médicos especialistas, o alcoolismo, o uso de drogas e a segurança pública (com policiamento considerado insatisfatório).

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Mestre Manoel Dionisio https://redeubuntu.org.br/mestre-manoel-dionisio/ Tue, 21 Jul 2026 12:18:40 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=11781 Mestre Manoel Dionisio

Mestre Manoel Dionisio

Fotos: Acervo Pontão de Cultura Ubuntu


O Baluarte da Dança Afro-Brasileira e da Tradição dos Mestres-Salas

Manoel dos Anjos Dionisio, carinhosamente conhecido em todo o cenário cultural como Mestre Dionisio, nasceu no ano de 1936 no bairro de Corgo-Sujo, no município de Além Paraíba, em Minas Gerais. Vindo de uma família humilde composta por quatro irmãos, sua trajetória no Rio de Janeiro começou aos 5 anos de idade, quando migrou com os familiares. A mudança foi viabilizada por uma de suas irmãs, que já trabalhava na capital fluminense como doméstica e trouxe o restante da família.

Ao chegarem ao Rio, estabeleceram-se na Favela Praia do Pinto, localizada no bairro do Leblon, na Zona Sul. Desde muito jovem, entre os 10 e 12 anos, Manoel desdobrou-se em trabalhos para auxiliar no sustento do lar e ajudar sua mãe. Trabalhava entregando marmitas para uma pensão e atuava como engraxate nas calçadas de Copacabana. Após um trágico incêndio criminoso que destruiu a Praia do Pinto, a família mudou-se para o Morro do Pavão, onde residiram até o ano de 1965. No comércio local, Manoel conquistou sua primeira assinatura em carteira de trabalho no Mercadinho Carioca, sob a gerência do proprietário conhecido como Seu Cunha.


Raízes Comunitárias e a Militância Carnavalesca

A veia artística e o compromisso comunitário de Manoel Dionisio foram herdados diretamente de sua mãe, uma festeira que tocava pandeiro e organizava rodas de calango regadas a café preto e broa de milho para acolher e sustentar as pessoas da comunidade. Inspirado por essa forte influência materna, ele passou a promover eventos culturais e artísticos no complexo de favelas.

Uma de suas produções, na sede do Morro do Pavão, ganhou tamanha relevância que contou com a presença ilustre do cantor Sidney Magal, agitando os moradores do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Mais adiante, Manoel foi um dos fundadores do bloco carnavalesco Império do Pavão, cujas cores eram o verde e o branco. Contudo, devido às acirradas rivalidades carnavalescas da época, acabou sendo expulso do Cantagalo, o que motivou sua mudança definitiva, em 1965, para o bairro de Padre Miguel, na Zona Oeste.


O Encontro com Mercedes Batista e o Despertar para a Dança

Em paralelo às atividades comunitárias, Manoel Dionisio ingressou no serviço militar e serviu ao Exército Brasileiro. No ano de 1955, pediu baixa das forças armadas após concluir o curso de Cabo, período no qual aguardava uma promoção que não chegou a se materializar.

Sua trajetória artística mudou radicalmente durante um passeio despretensioso pelo Aterro do Flamengo. Ao avistar o anúncio de um espetáculo teatral, comprou o ingresso e foi assistir à apresentação. No teatro, ficou completamente fascinado pela força dos atabaques e pela estética do Balé Folclórico Mercedes Batista – companhia liderada por Mercedes Batista, a histórica primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro que, devido ao racismo estrutural da época, nunca pôde ocupar um papel principal na instituição.

Ao visitar a companhia pela primeira vez, Manoel foi imediatamente escolhido por Mercedes Batista para integrar o corpo de baile. Consolidando uma carreira que já soma 35 anos dedicados exclusivamente à arte da dança, ele se considera, com imenso orgulho, um discípulo direto do legado de Mercedes. Ao longo do tempo, enfrentou certa dificuldade para se acostumar com a reverência e o peso contidos no título de “Mestre Dionisio”.


A Jornada Internacional e o Legado dos Mestres-Salas

Consagrado também como um exímio mestre-sala no Carnaval carioca, Manoel Dionisio visitou a Acadêmicos do Salgueiro pela primeira vez em 1959 e, em 1963, interpretou o célebre balé coreografado da escola. A partir de suas intervenções e conhecimentos, impulsionou o surgimento progressivo de alas coreografadas nos desfiles de escolas de samba, além de ter atuado como instrutor, ensinando os segredos do pavilhão a grandes nomes, como a renomada porta-bandeira Marcela Alves.

Em 1971, aos 34 anos de idade, Mestre Dionisio recebeu a oportunidade de se transferir para a Europa, passando a residir na Alemanha. Sua estadia no continente europeu estendeu-se por 14 anos. Na Alemanha, liderou uma companhia de espetáculos composta por 26 mulheres e 8 rapazes. O mestre realizava um intercâmbio cultural contínuo: vinha periodicamente ao Brasil para buscar novas referências e influências artísticas e as levava de volta para a Europa, onde passou a montar um impactante show afro no encerramento de suas apresentações.

Por seu notório saber e relevância na salvaguarda do patrimônio imaterial, Mestre Dionisio conquistou medalhas e reconhecimentos internacionais na França, além de ser condecorado com o prêmio de Personalidade Masculina no ano de 1995.


Vida Pessoal, Reencontro e Resiliência

Na época de sua partida para a Europa, o mestre já era casado e pai de dois filhos. Durante os anos em que residiu em solo alemão, casou-se novamente com uma cidadã alemã, união da qual nasceu um casal de filhos; contudo, após a separação do casal, ele perdeu o contato e nunca mais a reencontrou.

Mestre Dionisio retornou definitivamente ao Brasil no ano de 1982. Anos mais tarde, sua vida familiar ganhou um capítulo emocionante: o mestre recebeu uma ligação oficial do consulado informando que alguém o procurava na Europa. Com o auxílio fundamental de um amigo que possuía o sobrenome em comum (Anderson Dionisio), o mestre conseguiu rastrear e reencontrar seu filho que continuava morando na Alemanha – um atleta hoje aposentado dos octógonos do UFC.

Atualmente, Mestre Dionisio encontra-se aposentado. Apesar de enfrentar as dificuldades comuns aos idosos e fazedores de cultura no Brasil, vendo o valor real de seu benefício previdenciário diminuir progressivamente ao longo dos anos, o mestre preserva sua dignidade e gratidão. Embora externe o desejo sincero de desfrutar de uma vida material melhor, ele afirma com convicção e orgulho que absolutamente tudo o que construiu e conquistou em sua existência foi graças ao poder e à magia da dança.

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Mestra Célia https://redeubuntu.org.br/mestra-celia/ Mon, 20 Jul 2026 20:47:38 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=11744 Mestra Célia

Mestra Célia

Fotos: Maria Buzanovsky


Origens e
Inspiração Paterna

A história de Mestra Célia, trancista tradicional, cabeleireira afro e esteticista identitária, está salvaguardada na memória coletiva do bairro Santo Agostinho, em Volta Redonda, onde reside há 70 anos. Filha de uma das primeiras famílias a se estabelecerem na localidade, ela e sua mãe partilham o título de moradoras mais antigas da região. Sua inserção no universo dos cuidados capilares deu-se ainda na infância, observando o trabalho de seu pai, o primeiro barbeiro a atuar no bairro.

Fascinada pelas ferramentas e pelo movimento do ofício paterno, a menina Célia esgueirava-se em segredo para mexer nos materiais de barbearia e arriscar os primeiros cortes no cabelo de sua irmã. Essa admiração de infância moldou sua vocação e tornou-se a semente de uma longa jornada profissional e artística voltada para a estética negra e para o acolhimento.


Meio Século de Mestria nas Tranças e Cuidado Afro

DCom uma trajetória sólida que já soma 50 anos de experiência, Mestra Célia consolidou-se como uma pioneira na arte das tranças na região. Para além do domínio prático e intuitivo, buscou a formação técnica como cabeleireira para compreender a fundo as especificidades e a saúde do biotipo do cabelo crespo e cacheado.

Em uma época na qual o alisamento químico era a única alternativa socialmente aceita – processo que, embora legítimo por escolha, muitas vezes apagava a textura natural dos fios –, Mestra Célia caminhou na contramão. Ela transformou o seu ofício em um ato de valorização e resgate da identidade negra, ensinando suas clientes e pupilas a reconhecerem a potência de suas coroas. Para a Mestra, o cabelo é o elemento central de um conjunto que define a dignidade e a beleza de uma pessoa.

Sua dedicação transformou-se em legado educacional: ao longo de cinco décadas, formou inúmeras alunas (os) em Volta Redonda, espalhando suas “crias” pelo mercado da beleza afro e gerando autonomia financeira para outras mulheres. O amor pelo manejo dos cabelos também frutificou dentro de casa, e hoje sua filha e seu filho trabalham ao seu lado, perpetuando a tradição familiar que começou na antiga barbearia de seu pai.


Legado e
Identidade

Referência de ancestralidade e resistência em Volta Redonda, Mestra Célia enxerga o ato de trançar e embelezar como uma missão de vida. Suas mãos, que há meio século desenham tramas e resgatam a autoestima de sua comunidade, continuam ativas, mantendo viva a história de sua família e fortalecendo a identidade da cultura negra no Sul Fluminense.

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Mãe Célia (Mestra de Terreiro) https://redeubuntu.org.br/mae-celia-mestra-de-terreiro/ Mon, 20 Jul 2026 20:23:43 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=11723 Mãe Célia (Mestra de Terreiro)

Mãe Célia (Mestra de Terreiro)

Fotos: Maria Buzanovsky


Raízes, Fé e
Afetividade Familiar

A trajetória de Mãe Célia é profundamente alicerçada em uma infância rica em solidariedade, fé e manifestações culturais. Nascida em um lar de intensas lutas e profundas alegrias, cresceu em uma família numerosa de dez irmãos. Seu pai era trabalhador da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e músico. Tocava acordeon e violão, enquanto sua mãe cantava e lavava roupa para fora para complementar o sustento da casa.

A ancestralidade e o chamado para o cuidado com o outro manifestaram-se cedo através de sua avó materna, uma conhecida benzedeira católica procurada por uma vasta vizinhança em busca de cura e auxílio espiritual. Criada sob os preceitos da Igreja Católica, religião que professou até os 18 anos, Mãe Célia vivenciou uma rotina onde as portas de sua casa estavam sempre abertas. O espírito comunitário de seus pais fazia com que a mesa estivesse constantemente cheia de agregados, estabelecendo desde cedo sua compreensão sobre o acolhimento e a vivência coletiva.


O Encontro com a Umbanda e a Vocação Espiritual

Aos 18 anos, após realizar a primeira comunhão e cumprir os ritos católicos, o destino de Célia transformou-se ao aceitar o convite de uma amiga para visitar um terreiro de Umbanda. Ao cruzar o limiar daquele espaço sagrado, sentiu uma conexão imediata e arrebatadora – diz, reconhecendo ali o seu verdadeiro caminho e propósito de vida. Com determinação e o respeito de sua família, iniciou sua transição e dedicação integral à espiritualidade de matriz africana, trilhando uma caminhada que a consolidaria como uma respeitada liderança religiosa e mestra de saberes tradicionais.


O Terreiro como Espaço de Cura, Resistência e Transformação Social

Para Mãe Célia, o terreiro transcende a ritualística sagrada e litúrgica: trata-se de um território fundamental de resistência, educação, acolhimento e direitos. Sob sua liderança espiritual, o terreiro consolidou-se como um polo de atuação social voltado à comunidade, articulando projetos estruturantes que visam a inclusão, a saúde mental e o combate às opressões.

Entre as principais iniciativas desenvolvidas no espaço, destacam-se

(a) o Grupo das Marias: um coletivo dedicado ao universo e à temática feminina. Coordenado conjuntamente por uma psicóloga e uma assistente social, conta também com a orientação espiritual de uma entidade (Pombagira) ,oferecendo suporte e fortalecimento para as mulheres da comunidade;
(b) Coletivo Que Querer: Projeto voltado a impulsionar as potencialidades da juventude. Atua de forma preventiva e educativa, oferecendo aos novos caminhos, perspectivas artísticas e sociais que buscam afastar crianças e adolescentes da vulnerabilidade e das garras do tráfico de drogas;
(c)Sentinelas da Aldeia: Grupo voltado ao acolhimento e debate de pautas da comunidade LGBTQIA+, promovendo um ambiente seguro de convivência, orgulho e respeito às diversidades dentro e fora do terreiro;
(d) Projeto Munthu: Iniciativa focada na educação etnocracias nos terreiros. Desenvolve uma pedagogia de terreiro voltada para a vida, combatendo o racismo religioso e estrutural e promovendo a valorização da herança civilizatória africana.


Legado

Guiada pela máxima de que “o terreiro cura”, a Mestra de Terreiro Mãe Célia dedica sua vida a costurar a sensibilidade espiritual herdada de suas antepassadas com uma prática política e social ativa. Sua atuação estende as mãos aos vulnerabilizados, transforma o solo sagrado em sala de aula e faz de sua liderança um farol de acolhimento e justiça social no cenário das culturas tradicionais.

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Mestre Cláudio https://redeubuntu.org.br/mestre-claudio/ Sat, 11 Jul 2026 19:37:14 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10367 Mestre ClÁudio

Mestre Cláudio

Fotos: Maria Buzanovsky


Infância, Juventude e a Capoeira como “Segunda Pele”

A trajetória de Cláudio Pereira, amplamente conhecido como Mestre Cláudio, é uma narrativa de superação social por meio da arte. Nascido em uma família com escassos recursos econômicos, vivenciou uma infância simples onde as brincadeiras não exigiam custos. No entanto, foi na transição para a adolescência e a juventude que sentiu de perto o peso da vulnerabilidade social. Faltavam-lhe calçados, roupas adequadas e a infraestrutura básica necessária para se integrar e conviver em determinados grupos sociais.

Nesse cenário de privações, a cultura popular surgiu não apenas como uma alternativa de lazer, mas como um elemento transformador. Mestre Cláudio costuma definir a cultura e a capoeira como a sua “segunda pele”. Enquanto a sociedade impunha barreiras e o julgava pela ausência de vestes sofisticadas, Mestre Claudio fala, emocionadamente, que a roda de capoeira o acolheu de braços abertos: “ali, onde na época se jogava descalço e sem camisa, o critério de respeito não era a roupa, mas sim a força de vontade, a determinação e o conhecimento”. A capoeira lhe forneceu limites, metas de vida, desafios e o ensinou o valor civilizatório do respeito aos mais velhos, princípio basilar da matriz afro-brasileira.


A Busca pelo Conhecimento e a Consolidação Institucional

Determinado a se aprofundar na arte que o salvara, Mestre Cláudio enfrentou a falta de escolas técnicas e de uma estrutura formal de capoeira em Resende na sua juventude. Para aprender o ofício e absorver a verdadeira ginga, ele saía de seu trabalho na tradicional empresa Rodac (concessionária Volkswagen do Sul Fluminense, atualmente desativada) e deslocava-se até o município vizinho de Barra Mansa, onde treinou e se formou sob a tutela de grandes referências, como o Mestre Gomes e o Mestre Embaraço.

Demonstrando pioneirismo, Cláudio também foi um dos primeiros homens negros da região a ingressar no ensino superior, chegando a cursar até o segundo ano de Administração de Empresas em uma época em que não existiam políticas de cotas ou gratuidades universitárias.

Ao longo de cinco décadas de atuação, sua liderança consolidou-se na fundação e gestão de diferentes coletivos e salvaguardas culturais em Resende, a exemplo da Associação de Capoeira Berimbau de Angola, fundada por ele em 1985 para estruturar seus trabalhos com a capoeira tradicional na região de Resende; da Associação Residência de Capoeira, criada em outubro de 2020 com o propósito de atuar como uma rede de apoio burocrático junto a capoeiristas da região que estavam impossibilitados de concorrer em editais, por dívidas fiscais ou falta de documentação. Acrescente-se a estas o Instituto Afro-Brasileiro de Salvaguarda, a sua mais recente iniciativa institucional, criada para trabalhar em conexão com seus pontos de memória, de cultura e projetos, como o “Quilombos da Paz”.


O Terreiro da Resistência: O Instituto e a Sede no Morro do Batista

Atualmente, aos 70 anos de idade, casado, aposentado e funcionário ativo no Centro Histórico de Memória da Prefeitura de Resende, Mestre Cláudio mantém o Instituto sediado no bairro Lavapés, na área central, no topo do Morro do Batista. O espaço funciona em um imóvel alugado, cujo custo é dividido com sua irmã, e serve tanto para a guarda de acervos e hospedagem de mestres visitantes quanto para a articulação comunitária, tal como as tradicionais festas juninas colaborativas e gratuitas.

O corpo diretivo e de colaboradores do Instituto reflete uma rede de afeto e solidariedade que se move em torno da figura do próprio Mestre. A equipe conta com o secretário executivo Leandro, o instrutor de capoeira e futebol de salão Giovani, e o psicólogo Felipe de Jesus da Adão, profissional que cresceu sendo orientado pelo próprio Mestre. As parcerias estendem-se fortemente às mulheres da comunidade, responsáveis por toda a infraestrutura e alimentação dos eventos, a professores aposentados e a pessoas com deficiência, incluindo sua própria esposa, que possui deficiência visual e atua como pilar de sustentação dos projetos.

O Instituto Afro-Brasileiro de Salvaguarda atende a uma ampla diversidade social, conectando desde comunidades periféricas até turmas na região turística de Visconde de Mauá, além de manter trabalhos com alunos com deficiência visual. Financeiramente, a instituição movimenta uma média anual instável, dependendo essencialmente de editais públicos (como os recursos da Lei Aldir Blanc e da Lei Paulo Gustavo), enfrentando como principal obstáculo a burocracia e a lentidão na captação desses recursos.


Arte, Consciência e o Combate ao Racismo Estrutural

Além de mestre de capoeira, Cláudio desenvolveu habilidades como escultor, criando peças tridimensionais que moldam os movimentos e a ancestralidade da capoeira, substituindo os antigos “bilhetes de batizado” por símbolos reais de representação artística1.

Ao longo de sua vida, Mestre Cláudio enfrentou de cabeça erguida o racismo estrutural. Ele relata episódios marcantes de discriminação cotidianas e institucionais, desde motoristas de ônibus que recusavam sua parada na época em que ele era Diretor de Direitos Humanos, até o espanto de cidadãos e crianças que, ao ouvirem falar de seu prestigiado nome, esperavam encontrar uma figura branca na liderança. Em suas viagens internacionais pela Angola e pela África do Sul, encantou-se ao ver a população negra ocupando massivamente espaços de alta relevância médica, comercial e midiática, o que reforçou seu desejo de combater a realidade brasileira, que insiste em associar a pele negra à escassez.

1 No universo da capoeira, explica Mestre Claudio, “o termo bilhetes de batizado se refere a ingressos [bilhetes de rifa] vendidos para custear e arrecadar fundos para a realização do batizado de capoeira”. O batizado é um ritual de passagem, a cerimônia oficial onde os alunos iniciantes recebem sua primeira corda de graduação e os veteranos trocam de corda, marcando a evolução e formatura dentro do grupo. Ver: Silva, J. M. F. da (2003). A linguagem do corpo na capoeira. Rio de Janeiro: Sprint.


Legado:
“Investimento em Gente”

Com os dois filhos criados e bem encaminhados no serviço público (um atuando na Polícia Militar de Minas Gerais e o outro no Corpo de Bombeiros de São Paulo), Mestre Cláudio defende convictamente que a arte e a educação em tempo integral dentro das escolas são as únicas ferramentas capazes de frear a violência urbana e dar dignidade à juventude periférica.

Seu maior orgulho não reside em acúmulos financeiros, mas no que chama de “investimento em gente”. Afirma que o seu maior prêmio é ver antigos alunos transformados em cidadãos plenos, profissionais formados e proprietários de estabelecimentos que, mesmo afastados da prática diária da capoeira, carregam para a vida os ensinamentos éticos e humanos recebidos de suas mãos.

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Mestra Creuza https://redeubuntu.org.br/mestra-creuza/ Sat, 11 Jul 2026 23:38:18 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10524 Mestra Creuza

Mestra Creuza

Fotos: Maria Buzanovsky


Raízes e
Infância Criativa

Nascida e criada em uma atmosfera de profunda efervescência cultural e religiosa, Creuza Maria Pereira (Mestra Creuza) herdou de seus pais o amor pelas tradições populares. Sua infância na roça foi marcada pelas procissões religiosas em tempos de seca, onde se rezava coletivamente pedindo por chuva, e pelo som da Folia de Reis. Esta manifestação era liderada por seu pai e celebrada em sua casa, que também abrigava times de futebol locais e recebia parentes e foliões do Morro da Mangueira (RJ), como o seu tio Sebastião.

Desde os seis anos de idade, a pequena Creuza demonstrou um manejo nato e uma sensibilidade aguçada para moldar o mundo ao seu redor. Diante da escassez ou simplesmente pela pulsão de inventar, transformava o que a natureza oferecia em brinquedos: criava chinelos a partir do tronco da bananeira, esculpia bonecos e pequenos carros de boi em madeira, emoldava bichinhos e panelas utilizando o barro. Aos dez anos, mudou-se para a cidade, carregando consigo a inquietude artística e a herança cultural de sua família.


A Mestria da Fibra e o Reconhecimento no Artesanato

Com uma trajetória que já soma mais de meio século do fazer artesanal, Mestra Creuza especializou-se no manejo da fibra da bananeira. Através de tramas, trançados e revestimentos inovadores, ela transforma a matéria-prima em uma infinidade de peças utilitárias e decorativas, como bolsas, painéis e abanadores personalizados, requisitados até mesmo para casamentos em pleno verão fluminense.

Sua atuação foi fundamental para a consolidação do artesanato na região. Ela foi uma das fundadoras da Associação de Artesãos de Miracema (Casa do Artesão), instituição onde atua há mais de 20 anos e que hoje conta com um calendário quinzenal fixo de exposições na praça da cidade. Além da fibra da bananeira, sua criatividade abrange a bucha vegetal, podas de árvores urbanas que resgata para esculpir bonecos, e o tradicional artesanato em barro.

Sua expertise a levou a circular por diversos municípios, expondo e comercializando suas obras. Como detentora de um saber-fazer singular, atuou como instrutora em cursos e oficinas promovidos por órgãos de relevância técnica e econômica, como o Sebrae, Senar, Emater e secretarias municipais de Agricultura, aplicando sua arte em áreas rurais, fazendas e sítios.


Ervas Medicinais, Assistência Social e Carnaval: Uma Vida em Movimento

A atuação de Mestra Creuza ultrapassa as barreiras do artesanato. Detentora de um vasto conhecimento sobre a medicina tradicional, ela cultiva uma horta de ervas fitoterápicas em seu terreno, compartilhando mudas, receitas de chás e banhos gratuitamente com quem a procura. Esse saber também é levado por ela ao Centro de Convivência do Idoso, espaço onde participa ativamente de atividades, viagens e dinâmicas de socialização.

Sua dedicação ao bem-viver coletivo também se refletiu de forma marcante na infância e juventude de Miracema. No passado, fundou e liderou em sua própria casa o Grupo Recreativo Nossa Rua, uma iniciativa de forte impacto social que acolhia mais de 20 crianças da comunidade. Ali, Mestra Creuza oferecia aulas particulares, promovia competições de corrida rústica, organizava festas de fim de ano e articulava oficinas de bordado, ponto cruz e crochê, com o apoio de outras artesãs. Mais do que ensinar técnicas manuais, exercia um papel de suporte psicológico e pedagógico, ensinando valores sobre família e convivência.

Em paralelo, envolveu-se de corpo e alma no Carnaval local. Com gingado e samba no pé, destacou-se como passista e madrinha da Escola de Samba Santa Teresa, agremiação que, durante cinco anos consecutivos, conquistou o vice-campeonato na cidade. Também colaborou com a confecção de indumentárias, adereços e miniaturas de bois pintadinhos para o cortejo cultural.


Legado à Salvaguarda do Patrimônio Imaterial

Hoje, vinculada também às ações do Associação Grupo Sociocultural Cara da Rua, Mestra Creuza é uma referência de salvaguarda do patrimônio imaterial. Seja na praça comercializando sua arte, na terra cultivando o alimento e a cura, ou nos espaços formativos repassando seu legado às novas gerações, sua vida é o reflexo de uma mente que nunca para de criar e de um coração permanentemente voltado à alegria de viver na sua comunidade.

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Mestre Dengo https://redeubuntu.org.br/mestre-dengo/ Sat, 11 Jul 2026 17:09:11 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10295 Mestre Dengo

Mestre Dengo

Fotos: Maria Buzanovsky


O começo em 1973,
em Macaé

Minha história na capoeira começa em 1973, em uma Macaé onde a arte ainda ocupava as ruas, os campos de futebol e os parques. Sem mestres fixos na cidade, a gente aprendia no “pé do berimbau”, na troca de experiências. Meus primeiros passos foram guiados por Levi Tavares de Souza, um grande amigo e capoeirista experiente que já trazia a bagagem de Grupos de Caxias.

Naquela época, a capoeira era resistência pura. Treinávamos no Americano Futebol Clube, na quadra da Aroeira e na Princesinha do Atlântico — lugares onde a cultura preta pulsava. Lembro com orgulho das palavras do presidente do Americano na época: “A capoeira é cultura preta e merece apoio”. Aquilo nos deu força para difundir nossa arte.


A Lapidação
e a Graduação

Após passagens marcantes e o contato com figuras como Mestre Machado e Mestre Pavão (aluno do Mestre Cabrita), minha jornada tomou um novo rumo em 1980, quando ingressei no Grupo Angonal de Capoeira, em São Gonçalo, sob a orientação do Mestre Bocka.

Foi na Angonal que fui lapidado. Em 1981, tornei-me Contra-Mestre e, em 1984, após passar pela rigorosa banca examinadora no Fundão (RJ), recebi a graduação de Mestre.


Andanças
e Raízes

A capoeira me levou longe: Belo Horizonte, São Paulo, Maranhão e a Bahia de Santo Amaro. Bebi da fonte do Jongo, do Samba Rural e do Maculelê. Convivi com lendas como Mestres Corvo, Travassos e Manoel Gato Preto. Cada viagem foi uma soma de saberes que me moldou não apenas como capoeirista, mas como conhecedor da cultura popular.

Em 1999, fundamos o Grupo Raízes de Aruanda, levando o trabalho para Rio Bonito, Campos, Rio das Ostras e tantas outras cidades. Em 2014, alcancei o 4º Grau de Mestre, cercado por grandes nomes da capoeira do Rio de Janeiro

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Mestre Derli https://redeubuntu.org.br/mestre-derli/ Sun, 12 Jul 2026 13:43:00 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10617 Mestre Derli

Mestre Derli

Fotos: Maria Buzanovsky


Das Chamas do Asfalto ao Axé da Capoeira: Guardião de Jacarepaguá

Derli da Silva Costa nasceu no dia 2 de abril de 1956, na histórica comunidade de São Carlos, no bairro do Estácio, berço do samba carioca. No entanto, as linhas iniciais de sua história foram traçadas sob o signo da vulnerabilidade: entre os sete e os nove anos de idade, fez das calçadas do Rio de Janeiro a sua morada. Foi na pele que sentiu a face mais cruel do abandono quando, aos oito anos, enquanto dormia nas ruas, três pessoas atearam fogo ao seu corpo.

A tragédia, contudo, não determinou o seu fim. Socorrido e acolhido por outras três almas generosas, o menino Derli foi apresentado à capoeira. Aquela arte, que misturava dança, luta e herança ancestral, funcionou como um bálsamo curativo. Vagando pelas ruas de Ipanema, o pequeno capoeirista encontrou afeto e sustento na sensibilidade de grandes artistas da cultura nacional, como Leila Diniz e Marieta Severo, que frequentemente o alimentavam e o incentivavam.

No dia 12 de outubro, data em que se celebra o Dia das Crianças, próximo de completar 11 anos, o destino mudou seu cenário. Derli e sua mãe mudaram-se para a recém-fundada Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio. Ali, ao lado de sua grande protetora, ele viveu até os 30 anos, fincando as raízes de seu propósito.


“Levantou o Astral”
da Capoeira

Foi sob a tutela e os ensinamentos do respeitado Mestre Roque que Derli começou a praticar e a lapidar a sua capoeiragem, expandindo sua presença pelas rodas mais tradicionais do estado. Ao longo das décadas, sua dedicação transbordou o formato de defesa pessoal para se tornar uma filosofia de cura e elevação espiritual. Como em sua autodefinição: “a capoeira sempre foi mais forte que as dores da vida. Se eu não estava bem, ia para uma roda de capoeira e melhorava”. Sua energia contagiante, sorriso firme e jogo mandingueiro renderam-lhe um elogio eterno de seus pares e mestres, que afirmavam categoricamente: Derli “levantou o astral da capoeira”1. Defendendo a bandeira da arte com zelo e profunda reverência, ele passou a ser retratado como uma das maiores referências da Zona Oeste, identificado carinhosamente como o Mestre de Jacarepaguá.

1 Ver: BARBOSA, Valéria. Os grandes mestres Guardiães da Cidade de Deus: Fazedores de Destinos. São Paulo: Casa do Novo Autor Editora, 2012


O Legado Social e as Páginas de um Livro

Compreendendo a capoeira como uma ferramenta sagrada de resgate humano, Mestre Derli tornou-se um dos fundadores e o coordenador do Grupo de Capoeira Aliança Ariri. Através do grupo, levou o berimbau gunga para dentro das escolas municipais da Cidade de Deus, transformando a realidade de centenas de crianças e jovens que, assim como ele no passado, precisavam de um caminho de luz.

Sua dedicação em salvar vidas nas periferias foi coroada no Festival Juventude na Favela, onde recebeu uma grande homenagem por sua trajetória de impacto social. Sua caminhada inspiradora também foi eternizada na literatura, tornando-se personagem central do livro “Os Grandes Mestres Guardiões da Cidade de Deus“, escrito por Valéria Barbosa.


Fronteiras Rompidas: Da Favela para o Mundo

O menino que outrora dormia nas calçadas rompeu as barreiras invisíveis da exclusão e ganhou o mundo. Mestre Derli cruzou o oceano e as fronteiras americanas, viajando duas vezes para os Estados Unidos e acumulando prêmios internacionais. Um dos ápices de seu reconhecimento global ocorreu quando Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos, visitou a Cidade de Deus e parou para assistir à sua vibrante apresentação de capoeira.

Hoje, seu axé frutificou internacionalmente: o mestre possui alunos formados que perpetuam seus ensinamentos lecionando em solo canadense. Entre as inúmeras honrarias que recebeu ao longo de sua vitoriosa carreira, destacam-se a prestigiada Medalha Tiradentes (maior honraria concedida pelo Estado do Rio de Janeiro), a Medalha do Movimento de Cultura Negra e a Medalha de Reconhecimento outorgada pelo Cônsul do Canadá.


A Continuidade
do Axé

A maior e mais bonita vitória de Mestre Derli, contudo, repousa no seio de sua própria família. Pai orgulhoso de duas filhas, ele viu seu legado de amor pela capoeira ser abraçado pela nova geração. Uma de suas filhas seguiu rigorosamente os passos do pai, Darlene de Lima Costa, a Mestra Darlene, tornando-se capoeirista e professora de Educação Física.

Mestre Derli foi a prova viva de que a capoeira é terra fértil onde a dor se transforma em arte, o trauma se converte em ritmo e o cidadão marginalizado se consagra como um guardião imortal da cultura brasileira. Ele faleceu no dia 10 de junho de 2026, aos 70 anos de idade, durante a elaboração desta breve resenha sobre a sua vida.

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Mestre Geraldinho do Jongo https://redeubuntu.org.br/mestre-geraldinho-do-jongo/ Sat, 18 Jul 2026 00:05:54 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=11567 Mestre GERALDINHO

Mestre Geraldinho

Fotos: Maria Buzanovsky


Mestre Geraldinho do Jongo de Volta

José Geraldo da Costa, amplamente conhecido como Mestre Geraldinho do Jongo, é educador, historiador, poeta, escritor e mestre de saberes ancestrais. Nascido no estado do Rio de Janeiro, ele completou 60 anos em dezembro de 2025. Atualmente, reside na cidade de Volta Redonda, no Vale do Paraíba, onde atua como funcionário público municipal (professor da rede pública) e lidera uma das iniciativas mais expressivas de salvaguarda do jongo na região.  Sua trajetória é marcada pela interseção entre a educação formal, a militância antirracista, a religiosidade e as artes tradicionais de matriz africana.

O Despertar e o Aprendizado Ancestral

A caminhada de Mestre Geraldinho na cultura tradicional começou no ano de 1980, tendo a capoeira como sua porta de entrada. Foi por meio dela que ele se aproximou de comunidades tradicionais e estabeleceu contato com os antigos detentores do jongo na região do Vale do Paraíba. Nesse processo de imersão e transmissão oral, ele reconhece como referências fundamentais de aprendizado o Mestre Gabion (Benedito Gabina Filho), seu mestre de fato, com quem aprendeu o ofício observando e vivenciando a prática, Mestre Benedito Cadu na Pai (Seu José de Oliveira) e Mestra Fatinha e suas irmãs, Memé e Gracinha.

Essa sólida base de ensinamentos construída ao longo de mais de quatro décadas de dedicação consagrou sua transição para o papel de Mestre. Na esfera espiritual, Geraldinho expressa com orgulho sua identidade religiosa, sendo iniciado no Candomblé da Nação Ketu.


A Fundação do “Jongo de Volta”

Após décadas de aprendizado contínuo junto ao Jongo de Pinheiral e outras comunidades tradicionais da região, Mestre Geraldinho fundou o seu próprio grupo em 11 de maio de 2015. Logo adiante recebeu certificação como Ponto de Cultura Jongo de Volta, nome que carrega um duplo sentido poético e histórico: faz uma paródia com a expressão “jongo de volta” (típica dos trocadilhos e metáforas das rodas de jongo) e, ao mesmo tempo, demarca o território de Volta Redonda. Em 2025 o coletivo celebrou o marco de 10 anos de existência com uma grande festividade.  

Mestre Geraldinho ressalta que, embora Volta Redonda seja hoje vista essencialmente como uma cidade industrial, a presença do jongo na localidade é histórica e ancestral, remontando às antigas fazendas da região antes da instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), como Três Poços, Retiro e Aterrado. O projeto, portanto, atua para trazer esse jongo de volta à memória da cidade.

Atuação, Territórios e Desafios

O Ponto de Cultura Jongo de Volta atua de forma totalmente voluntária, contando com um núcleo de cerca de 28 integrantes fixos (podendo passar de 40 participantes flutuantes). As ações estruturantes focam nos conhecimentos tradicionais, na cultura negra, nos direitos humanos e no patrimônio imaterial, unindo dança, música, expressão literária e celebrações festivas. O público atendido é diverso, englobando desde crianças e jovens até idosos, quilombolas e populações em situação de vulnerabilidade social.

O coletivo não possui sede própria e opera de forma descentralizada em duas bases principais cedidas pelo poder público e parcerias em Volta Redonda, o Clube dos Palmares e o Memorial Zumbi, localizado na Rua 23, na Vila Santa Cecília.  Apesar do reconhecimento institucional e de premiações pontuais do Estado (como editais voltados à rede de patrimônio e a Política Nacional Aldir Blanc), Mestre Geraldinho aponta que a falta de recursos financeiros contínuos e a ausência de um espaço físico próprio são os maiores obstáculos enfrentados para manter as atividades e dar a devida dignidade aos saberes que protege e transmite.


A Importância Histórica do Jongo no Vale do Paraíba

A história de Mestre Geraldinho e do coletivo Jongo de Volta joga luz sobre um capítulo fundamental da formação cultural do sudeste brasileiro: o Vale do Paraíba como o grande epicentro histórico do jongo e as transformações sofridas por essa tradição com o advento da modernidade industrial.

Durante o século XIX, o Vale do Paraíba concentrou a riqueza do ciclo do café no Brasil, sustentada integralmente pelo sistema escravista. Milhares de homens e mulheres escravizados, vindos majoritariamente da região Congo-Angola (de matriz linguística bantu), foram trazidos para as lavouras da região1.  Desde então, o jongo veio se consolidando nesse território não apenas como uma expressão de música e dança, mas como uma ferramenta de sobrevivência, resistência e comunicação secreta. 

Mestre Geraldinho argumenta que, por meio de metáforas e trocadilhos em poesia (os “pontos”), os jongueiros se comunicavam nas rodas sob os olhos dos feitores. Eles combinavam fugas, ironizavam os senhores e transmitiam avisos sem que os opressores compreendessem o código visual e linguístico. Neste sentido, a roda de jongo era um dos raros momentos onde a hierarquia da fazenda se invertia. Ali, os líderes da comunidade (os pretos velhos e mestres) detinham o respeito e o poder espiritual, curando e aconselhando através da ancestralidade.  O Mestre torna a referir Pinheiral, Três Poços, Retiro e Aterrado como “lugares de memória” porque abrigavam antigas fazendas de café onde os tambores Caxambu e Candongueiro ecoaram intensamente antes da abolição.

1 Há uma extensa bibliografia que corrobora a abordagem do Mestre Geraldinho, como, por exemplo, um clássico de Ricardo Salles, que analisa como a expansão do café moldou a estrutura social e a elite agrária do século XIX. O autor demonstra o peso dos “barões do café” e o funcionamento cotidiano do sistema escravista.  Ver: SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX. Senhores e escravos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.


O Impacto da Industrialização e o “Apagamento” Cultural

A partir de meados do século XX, o Vale do Paraíba passou por uma mudança drástica de perfil econômico e social. O marco divisor desse processo foi a fundação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda, inaugurada nos anos 1940. A chegada da grande indústria transformou a dinâmica da região, a começar pela migração e pelo êxodo rural em razão da decadência das lavouras de café, que, somada à promessa de emprego na nascente indústria siderúrgica, provocou um forte êxodo rural. As famílias jongueiras, que mantinham a tradição viva nos territórios de antigas fazendas e pequenas comunidades rurais, mudaram-se para os centros urbanos em busca de sobrevivência, fragmentando os núcleos familiares onde a transmissão oral do jongo acontecia naturalmente.

Com a construção da CSN, Volta Redonda foi projetada e divulgada nacionalmente como a “Cidade do Aço”, símbolo da modernidade e do futuro industrial do Brasil. Essa narrativa de progresso tecnológico gerou um apagamento histórico da herança rural e afrodiaspórica da região. Criou-se o mito de que Volta Redonda nasceu a partir da fábrica, invisibilizando o fato de que aquele solo já era habitado, cultivado e sagrado para comunidades negras que dançavam o jongo muito antes das chaminés de aço existirem.


Legado: “Investimento em Gente”

Nas novas áreas urbanas industriais, as manifestações de matriz africana enfrentaram forte preconceito. O jongo e as religiões de terreiro, como o Candomblé Ketu mencionado pelo Mestre Geraldinho, foram empurrados para a periferia geográfica e social, vistos pela lógica higienista urbana como “práticas do passado” ou incompatíveis com o ritmo da vida operária.

Ao ocupar espaços como o Memorial Zumbi e o Clube dos Palmares, e ao aliar o jongo à pauta do antirracismo e da educação, Mestre Geraldinho e seu coletivo provam que a identidade operária da região não anula sua raiz africana; pelo contrário, o jongo resistiu por baixo do asfalto da cidade industrial e exige o seu lugar de direito na história do Vale do Paraíba.

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Mestre Ivail https://redeubuntu.org.br/mestre-ivail/ Mon, 13 Jul 2026 18:50:43 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10875 Mestre Ivail

Mestre Ivail

Fotos: Maria Buzanovsky e Acervo Fado Negro de Quissamã


Infância, Raízes e a Herança do Fado

Ivail dos Santos, Mestre Ivail, o Guardião do Fado Negro de Quissamã, nasceu e foi criado neste município, no estado do Rio de Janeiro. Vindo de uma família profundamente ligada às tradições locais, ele é filho de Deodato dos Santos (que não cantava, mas era um exímio dançarino de fado) e de Maria Luiza de Andrade, uma festeira que tocava viola, pandeiro e dançava, e que faleceu aos 94 anos.

A paixão de Mestre Ivail pela cultura popular começou cedo. Aos 16 anos, ele ingressou no Fado Negro de Quissamã, aprendendo a tradição com os mais antigos: seus tios, sua mãe e seus avós. Em sua infância, o aprendizado era rigoroso e baseado na pura observação. As crianças não podiam entrar nos pequenos salões onde os adultos dançavam; Mestre Ivail e seus contemporâneos aprendiam espiando pelas janelas, gravando na mente o bater do pandeiro, o ponteado da viola e o ritmo dos passos.

Mestre Ivail representa a terceira geração do Fado Negro de Quissamã, uma expressão cultural única (diferente do fado português) que outrora preenchia todas as fazendas da região (Campos, Trajano de Moraes e Macabu), mas que hoje resiste fortemente apenas em Quissamã através do seu próprio esforço e paixão.


Trajetória de Vida e Carreira Profissional

Na juventude, trabalhou pesado na lavoura para ajudar no sustento de seus irmãos, o que limitou seus estudos até a 4ª/5ª série do antigo primário. Ainda jovem, alistou-se no Exército e viveu por 5 anos na cidade do Rio de Janeiro. Em 1968, mudou-se para Brasília, onde residiu no setor do Gama por 9 anos e meio. Em 1982, a pedido de seus pais que sentiam a distância e a longa viagem de quase três dias da época, Mestre Ivail retornou definitivamente para sua terra natal. De volta a Quissamã, consolidou sua carreira profissional no serviço público, na Guarda Municipal de Quissamã, onde atuou com orgulho por 25 anos na prefeitura, até a aposentadoria.

Na vida pessoal, o mestre enfrentou a dolorosa perda de sua companheira em 2021, vítima da Covid-19. Hoje, aos 80 anos de idade, completados recentemente1 , ele reside sozinho em sua casa própria de alvenaria próxima à rodoviária de Quissamã, na companhia fiel de seus três cachorros. Católico devoto e de muita fé em Nossa Senhora Aparecida, ele superou recentemente um período de mais de um ano de enfermidade e segue firme adiante.

1 Coincidiu de a equipe do Pontão de Cultura UBUNTU, a propósito da realização de entrevistas pré-agendadas, estar presente na noite de comemoração do seu aniversário, na Casa da Farinha de Quissamã .


O Ofício de Mestre: Música, Artesanato e Resistência

Além de cantar e dançar, Mestre Ivail é um artista completo da cultura popular. Compositor, escreve e prepara as suas próprias letras de fado, conhecidas nessa tradição como “mineiras”; instrumentista, toca viola e pandeiro; artesão, fabrica os próprios pandeiros do grupo, dominando o corte da madeira e o preparo do couro.

Seu valor cultural é amplamente reconhecido fora de seu município. Mestre Ivail possui a carteira de Mestre de Terno de Reis (Reisado) reconhecida pelo Inepac 2. Atualmente, no fado, ele conta com a parceria dos cantores Joel e Alcebir para realizar as apresentações, que costumam ocorrer em locais como a Casa da Farinha ou o museu local. Toda a parte de produção, editais e presença digital do grupo é gerida por uma liderança fundamental, a Senhora Marta.

Mestre Ivail aponta com firmeza a falta de apoio financeiro e de fomento por parte do poder público municipal, destacando que a prefeitura muitas vezes utiliza a imagem em vídeo do fado para exibições externas, mas não oferece ajuda de custo, transporte ou suporte para a realização de oficinas locais. A sobrevivência da tradição tem sido garantida pela união do grupo e por pontuais apoios do Estado.

2 O Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) é o órgão do Governo do Estado do Rio de Janeiro, vinculado à Secretaria de Estado de Cultura, responsável por preservar a identidade e a memória fluminenses


O Apelo para o Futuro

Ao celebrar suas oito décadas de vida com muita lucidez, Mestre Ivail deixa um apelo emocionado para as novas gerações. Ele lamenta que a juventude atual prefira o funk e outras distrações modernas em vez de valorizar a riqueza do fado local. Como o último de sua família a manter a tradição ativa, seu maior desejo é que os jovens se interessem em aprender a arte, permitindo que o Fado Negro de Quissamã faça a transição para uma quarta geração e nunca deixe de existir. “Nós viemos bancando esse fado de Quissamã por vontade, por gostar, por manter a tradição”. Essas palavras do Mestre Evail certamente são representativas de todos que se engajam na continuidade cultural do Fado Negro.

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Iya Maria Fiderioman https://redeubuntu.org.br/iya-maria-fiderioman/ Sun, 12 Jul 2026 15:37:29 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10708 IYA MARIA FIDERIOMAN

Iya Maria Fiderioman

Fotos: Mariana Monteiro


Origens e o
Berço em Madureira

Nascida e criada no coração de Madureira, um dos maiores efervescentes berços da cultura negra e da ancestralidade carioca, ela cresceu envolta pelas tradições e pelos tambores de uma família profundamente ligada às religiões de Matriz Africana. Seus primeiros passos espirituais foram dados no solo acolhedor da Umbanda, para mais tarde consolidar sua caminhada e dedicação no Candomblé.

Embora o destino já estivesse traçado pelo axé de seus antepassados, aceitar a própria ancestralidade não foi um processo simples. O amadurecimento espiritual exigiu tempo, autoconhecimento e coragem para romper barreiras internas e externas, acolhendo em plenitude a herança sagrada que corria em suas veias.

Atualmente, filha de santo da Mãe Neuza de Xangô, traz em sua essência a força e a ancestralidade de uma casa tradicional de matriz africana, (Ile Ase Nasso Oka – Terreiro da Casa Branca / Salvador BA), onde o matriarcado se ergue como alicerce sagrado, perpetuando-se com respeito, honra e devoção ao longo das gerações.

Mãe de seis filhos, sendo um deles acolhido e amado como fruto do coração, expressa em sua vida a mais pura forma de amor. Como Iyá, é também mãe de muitos filhos espirituais, a quem guia com sabedoria, acolhe com carinho e protege com a força de sua fé. Sua trajetória é um reflexo da união entre tradição e afeto, onde cada gesto carrega cuidado, cada palavra transmite ensinamento e cada passo reafirma sua conexão profunda com suas raízes e sua missão de amor e espiritualidade.


A Liderança Espiritual e o Axé de Oxum

Hoje, consagrada como Yalorixá (Mãe de Santo) e orgulhosa filha de Oxum – a orixá dona dos rios, das cachoeiras, do ouro, das cores douradas e amarelas, da fertilidade feminina e do amor – Mestra Marcia da Oxum comanda seu terreiro com retidão e sabedoria. Sob a égide de sua mãe Oxum, compreende que a sua missão vai muito além dos rituais e das obrigações internas. Sua voz ecoa como um clamor por tolerância, pontuando com firmeza que as religiões e a sociedade como um todo precisam, acima de tudo, aprender a conjugar a palavra respeito. Através do acolhimento em seu espaço sagrado, ela desmistifica preconceitos históricos e fortalece a identidade de tradição africana.


Militância e a
Arte do Afoxé

Sua dedicação à cultura afro-brasileira estende-se com vigor para além das paredes do terreiro. Iya Maria Fiderioman, como dirigente e líder de Afoxé – o “candomblé de rua” -, ela ajuda a transbordar o sagrado para o espaço público em forma de música, dança, cores e ritmos cortantes. O afoxé, sob sua regência, torna-se uma celebração viva de resistência, beleza e orgulho negro.

Paralelamente à vida artística e religiosa, atua como uma ferrenha militante pelas causas raciais e pela liberdade religiosa. Sua trajetória em Madureira é o retrato da mulher preta que transformou suas dificuldades iniciais em liderança comunitária, fazendo de sua fé a sua principal ferramenta de luta política e de transformação social.

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Mestre Jimmy https://redeubuntu.org.br/mestre-jimmy/ Thu, 16 Jul 2026 01:14:16 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=11522 Mestre JIMMY

Mestre Jimmy

Fotos: Xerel


De São Paulo para o Rio de Janeiro: Uma Trajetória de Sucesso

Ronaldo Messias Lacerda, o Mestre Jimmy, nasceu em São Paulo, mas foi criado no Rio de Janeiro. Filho de uma empregada doméstica e de um feirante, cresceu na Fazenda Manguinhos, nas proximidades de Bonsucesso. Sua trajetória na capoeira começou cedo, em 1970, quando tinha apenas 12 anos de idade, sob a tutela de seu primeiro mestre, Onça Preta, no subúrbio carioca.

Sua vida deu uma guinada através da arte: praticante de balé moderno na escola pública, chamou a atenção de um diretor que o levou para concluir os estudos na Barra da Tijuca. Lá, conheceu o Mestre Gilberto da Barra (do Grupo Irmãos Capoeira Fraternidade), aprofundando-se na musicalidade da capoeira.


O Divisor de Águas na Universidade

Mestre Jimmy ingressou no curso de Educação Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Durante a graduação, participou de um campeonato universitário em que os atletas mais graduados dominavam. Sua performance chamou a atenção, abrindo as portas para uma monitoria na própria universidade. Jimmy, então, passou a dar aulas de capoeira das 6h às 8h da manhã para estudantes de Direito e Medicina da UFRJ, no campus Fundão, antes de assistir às suas próprias aulas de Educação Física. Esse trabalho foi o suporte financeiro que permitiu que ele se mantivesse na faculdade (formando-se em 1987) e começasse a expandir suas ações sociais nas favelas cariocas, como a Maré e a Vila do João. Em 1987, recebeu sua primeira graduação de mestre, consolidando sua formação definitiva em 1992.


A Fundação do Grupo Carcará e a Expansão Internacional

Incentivado por Beto Banos (do grupo Liberdade), Mestre Jimmy fundou o Grupo Carcará em 1983. O trabalho, que começou modesto em Bonsucesso e na Vila do João, ganhou o mundo de forma inesperada.

Na década de 1990, um de seus alunos da periferia, apelidado de Fumaça, mudou-se para a Europa e enviou passagens para que o Mestre realizasse oficinas no exterior. Desde então, Mestre Jimmy cruzou o Atlântico mais de 40 vezes. Atualmente, além de forte atuação nacional em locais como Cabo Frio (RJ), o Grupo Carcará hoje possui ramificações internacionais sólidas em dois países europeus: Itália (Roma), onde atuam a Mestra Água Viva (italiana que vive exclusivamente da capoeira) e o Mestre Capivara e Alemanha (Berlim), sob a liderança de Mestre Fumaça, e também nos Estados Unidos, com frentes em Massachusetts.


Metodologia Pedagógica: Capoeira como Formação de Cidadãos

Para Mestre Jimmy, a capoeira não se resume a levantar a perna ou desferir golpes; é uma ferramenta de conscientização racial e social. Ele oferece aulas inteiramente gratuitas para crianças e adolescentes desde 1985, mas impõe regras rigorosas de contrapartida para a construção da cidadania. Explica o Mestre:

“Eu não aceito aluno sem o responsável presente. Explico para a mãe que é de graça, mas é pior do que pagar: exijo o boletim escolar de dois em dois meses e o atestado médico atualizado da Clínica da Família. Se não tiver consciência cidadã, o sujeito vai ser um péssimo capoeirista, um péssimo pai, um péssimo tudo.” (Mestre Jimmy. Entrevista: Rio de Janeiro, novembro, 2025).

Suas aulas não se limitam aos movimentos físicos. Jimmy utiliza a capoeira, a puxada de rede e o samba de roda como base para discutir Afrocentricidade e a valorização da raça negra, ensinando seus alunos sobre grandes personalidades históricas como Luiz Gama. Como sobrevivente de uma geração de favela que foi dizimada pela violência, ele enxerga no compartilhamento de seu conhecimento um compromisso inadiável de retorno ao seu povo.


Vida Pessoal e Atuação Recente

Divorciado, ele adotou seu filho com apenas seis meses de vida. O jovem, hoje com 22 anos, é pessoa com de deficiência. Após a separação, Mestre Jimmy assumiu a criação do filho sozinho, levando-o inclusive em suas viagens internacionais de capoeira como seu fiel companheiro.

Atualmente, Mestre Jimmy reside em um condomínio fechado em Rio das Pedras, Jacarepaguá. Ele continua atuando como professor concursado de Educação Física na rede municipal de ensino, comandando as aulas do Grupo Carcará no CIEP Professor Lauro de Oliveira Lima (Rio das Pedras), às segundas e quartas-feiras, das 18h às 20h30, além de iniciar atividades no CIEP Diego Braga. Mestre Jimmy mantém-se firme em seu trabalho de devolver à sociedade e ao povo negro o conhecimento que o salvou das estatísticas de violência de sua juventude.

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Mestre José Facury https://redeubuntu.org.br/mestre-jose-facury/ Sun, 12 Jul 2026 17:21:43 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10728 Mestre José Facury

Mestre José Facury

Fotos: Mariana Monteiro


Do Maranhão a Cabo Frio: um Guardião dos Bonecos e da Cultura Viva

Natural do Maranhão, o professor de artes e arte-educador aposentado da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) construiu suas raízes em solo fluminense. Em 1984, mudou-se para a cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos, onde fincou suas fundações ao casar-se com uma artista cabo-friense especializada na confecção de bonecos.

Sua trajetória sempre foi pautada pela interdisciplinaridade das artes, transitando com fluidez pelo teatro, desenho, escrita e pela arte titeriteira (teatro de bonecos). Essa efervescência criativa em ambiente familiar fez com que ele, sua esposa e seus filhos unissem forças para fundar um grupo de teatro próprio. O que começou como uma companhia de atuação cênica expandiu-se e, com o tempo, desdobrou-se na criação de dois espaços culturais independentes na cidade.


O Território Cênico e a Padaria Cultural

Atualmente, o artista gerencia uma engrenagem cultural complexa em uma área de transição socioeconômica estratégica em Cabo Frio: um território situado geograficamente entre a rodoviária municipal, a comunidade do Itajuru e o centro urbano, fazendo fronteira com condomínios de classe média alta. Nesse entroncamento de realidades, pulsa o seu ponto de cultura familiar.

O espaço possui uma dinâmica de autossustentabilidade única, dividindo-se em três pilares integrados: o Pequeno Teatro e Museu de Bonecos, que guarda um expressivo e volumoso acervo de bonecos teatrais históricos e sedia apresentações cênicas; a Padaria Artesanal, gerenciada por seu filho, aberta diariamente das 8h às 18h e serve como a principal fonte de realimentação financeira para cobrir os custos e manter a autonomia do centro cultural. Logo após o fechamento da padaria, o espaço transforma-se por completo, abrindo suas portas para ensaios, oficinas e o desenvolvimento de produções artísticas variadas, um polo noturno.

Além desse centro cultural familiar, o educador atua ativamente na Tribal (Associação Cultural Tributo à Arte e à Liberdade), um segundo ponto de cultura que reúne e articula uma ampla rede de artistas locais. Diante do desafio logístico de gerenciar duas estruturas robustas na maturidade, ele trabalha para unificar as iniciativas em um único e potente polo cultural.


Militância e a Defesa da Política Cultura Viva

Com uma vida inteira dedicada à formação de cidadãos por meio da arte, ele acumula uma sólida bagagem na formulação de políticas públicas, exercendo o mandato de conselheiro no Conselho Nacional de Cultura. Embora planeje encerrar seu ciclo nos conselhos institucionais ao final de seu mandato, sua convicção ideológica permanece inabalável.

Para o arte-educador, Mestre José Facury, os editais públicos conquistados esporadicamente são complementos importantes, mas o verdadeiro motor da transformação social reside no reconhecimento comunitário de base. Defensor ferrenho da descentralização da arte, ele reafirma a Política Nacional Cultura Viva como o modelo de excelência por democratizar o acesso e valorizar os fazedores de cultura que atuam no cotidiano das franjas urbanas, mantendo viva a chama da criatividade e do acolhimento social.

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Mestre Luiz Neves https://redeubuntu.org.br/mestre-luiz-neves/ Mon, 13 Jul 2026 13:59:51 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10789 Mestre Luiz Neves

Mestre Luiz Neves

Fotos: Maria Buzanovsky


O Mestre Artesão da Química, da Música e da Essência do Axé

Luiz Cláudio Pereira das Neves, amplamente reconhecido no cenário cultural como Mestre Luiz Neves, nasceu e cresceu imerso em um ambiente profundamente estimulante, criado no seio de uma família artística. O despertar de sua sensibilidade ocorreu precocemente: aos 5 anos de idade, ele iniciou seus passos na arte através do aprendizado da música. A partir desse marco, desenvolveu um fascínio contínuo por todas as manifestações e expressões que envolvem o fazer artístico.

Contudo, apesar do forte DNA criativo da família, seu pai exigiu rigidamente que o jovem assegurasse uma formação profissional estável e formal. Atendendo ao desejo paterno, Luiz Neves buscou estabilidade ao ingressar e se envolver profissionalmente na área da química. Posteriormente, cumpriu suas obrigações de cidadania ao servir o Exército Brasileiro.


O Retorno aos Palcos e o Aperfeiçoamento Visual

Após concluir suas obrigações no serviço militar, a paixão pela arte falou mais alto, e Luiz Neves retornou à sua primeira vocação, consolidando-se na carreira de músico da noite. No entanto, sua inquietação criativa não se limitava aos acordes e melodias. Movido pelo desejo constante de expansão artística, o músico buscou o desenho como um canal de expressão visual. Com disciplina e sensibilidade, passou a estudar e praticar com afinco, procurando aperfeiçoar suas técnicas de traço, luz e sombra.


O Encontro com o Biscuit e os Estudos de Anatomia

A transição definitiva para o universo da escultura tridimensional ocorreu por intermédio e estímulo de sua esposa, que percebeu seu potencial plástico e o incentivou a elaborar e criar esculturas utilizando o biscuit como matéria-prima. Ao abraçar o novo desafio, Mestre Luiz Neves mergulhou em profundos estudos autodidatas sobre a anatomia humana. Foi através dessa análise minuciosa das proporções e formas do corpo que o artesão desenvolveu uma assinatura conceitual e filosófica própria para o seu trabalho, percebendo e defendendo que a cabeça rege tudo, sendo o centro de comando de toda a expressividade da peça.


A Descoberta do Axé e a Modelagem dos Orixás

Apesar de não ter planejado inicialmente direcionar sua produção para o segmento religioso, a força e a beleza de suas esculturas naturalmente o aproximaram das tradições de matriz africana. Atraído pela potência estética e mística de suas próprias criações, o Mestre começou a frequentar os terreiros de candomblé. Essa imersão espiritual e comunitária transformou sua visão de mundo: o artesão passou a compreender e interpretar os Orixás em sua essência mais pura, traduzindo o axé, a força e a energia dessas divindades diretamente para a modelagem em biscuit. Hoje, Mestre Luiz Neves é uma referência de sensibilidade e salvaguarda cultural, unindo ciência, som e ancestralidade em obras que conectam a matéria ao sagrado.

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Mestre Levi https://redeubuntu.org.br/mestre-levi/ Mon, 13 Jul 2026 19:22:48 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10919 Mestre Levi

Mestre Levi

Fotos: Maria Buzanovsky


O Historiador e Guardião da Memória da Capoeiragem Fluminense

Levi Tavares de Souza, Mestre Levi, nasceu em Campos dos Goytacazes, indo para a cidade de Macaé, no estado do Rio de Janeiro, com meses de nascido. Durante a infância, costumava passar temporadas na casa de sua tia e madrinha – considerada por ele uma segunda mãe –, que residia próxima à histórica Igreja do Pilar, no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Seu primeiro contato indireto com a arte ocorreu por volta dos 11 anos de idade. Um vizinho que trabalhava em uma oficina costumava voltar para casa ao meio-dia e fazer acrobacias e cambalhotas do outro lado da cerca. Ele desafiava Levi e outras crianças da vizinhança a imitarem os movimentos. Na época, Mestre Levi encarava tudo apenas como uma brincadeira infantil, sem saber que se tratava de capoeira. Tanto que, quando seu pai vinha de Macaé e ouvia da tia que o menino estava estudando, mas jogando muita bola na rua e capoeira, Levi sequer compreendia o significado real da palavra.

O início formal e consciente na prática deu-se no começo da década de 1970, na academia do mestre Josias da Silva, onde as aulas eram ministradas pelo então contramestre Raimundo. Anos mais tarde, em um encontro em Curitiba, ao relatar essa história para o Mestre Paulo dos Anjos e outros mestres mais velhos, recebeu o conselho de contar seu tempo oficial na arte a partir da primeira ginga que realizou (entre 1968 e 1969), pois na época não existiam fichas ou documentações formais 1. Em 2018, completou a expressiva marca de 50 anos de dedicação ininterrupta à capoeiragem.

1 As documentações formais que definem o ofício de Mestre de Capoeira surgiram de forma oficial com o registro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural do Brasil em 20 de novembro de 2008. Esse dossiê oficial reconhece o mestre como o principal detentor e transmissor dos saberes, rituais e toques. Em 2024, o título foi revalidado e passou a se chamar Ofício dos Mestres e Mestras da Capoeira. Ver: https://bcr.iphan.gov.br/bens-culturais/oficio-dos-mestres-de-capoeira/ . Acesso em 12 Jul 2026.


O Grupo “Silêncio com a Fera” e o Retorno a Caxias

De volta a Macaé na juventude, Mestre Levi começou a treinar intensamente no quintal de sua casa com um jovem conhecido como Dengo. O compromisso com o treino era tão firme que, em dias de chuva, eles arrastavam os móveis da sala de estar para praticar dentro de casa, sob os protestos de sua falecida mãe. Ao atrair outros jovens locais interessados na defesa pessoal, Levi, que já tinha a experiência dos treinos na capital, assumiu a responsabilidade de orientá-los. Ao decidirem fundar uma escola, o nome escolhido refletiu a postura de humildade e respeito recomendada por Levi aos garotos: “Nós estamos aqui garotos jovens, não temos experiência. Vamos fazer a capoeira aqui, mas se chegar algum capoeirista, algum mestre lá do Rio de Janeiro, a gente tem que fazer silêncio, falar pouco e fazer silêncio com essas feras aí”. Assim nasceu o grupo “Silêncio com a Fera”.

O trabalho dessa garotada nas praias de Macaé (como a praia de Imbetiba) foi descoberto e testemunhado por grandes nomes, a começar pelo Mestre Machado. Quando o pai de Mestre Levi decidiu retornar em definitivo para Duque de Caxias, Levi orientou Mestre Dengo (que daria continuidade ao legado em Macaé) a buscar um Mestre para seguir sua trajetória. Em 1977/1978, Levi restabeleceu suas aulas em Caxias, no bairro de Campos Elíseos (próximo à Refinaria de Duque de Caxias – REDUC), formando turmas cujos alunos históricos ultrapassaram décadas de lealdade e hoje superam os 50 anos de idade, como o Mestre Milton (seu aluno mais antigo e primo) e o Mestre Tourinho.


O Encontro com o Mestre Corvo e a Formatura

Em meados dos anos 1970, enquanto servia como militar no Centro de Instrução Almirante Graça Aranha – CIAGA – Marinha do Brasil, Mestre Levi promovia rodas de capoeira à beira da piscina todas as quartas-feiras de esporte para militares vindos do Espírito Santo e de Campos. Sua trajetória mudou de patamar ao ser apresentado ao Mestre Corvo pelo falecido Mestre Djalma Bandeira. Após uma tentativa frustrada de encontrá-lo na Confederação Brasileira de Pugilismo, na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro, os dois finalmente se reuniram. Mestre Corvo, notando o potencial do jovem instrutor que estava sem uma liderança formal, fez-lhe o convite para treinar sob sua tutela. Mestre Levi aceitou e levou consigo todos os seus 54 alunos para a escola de seu novo mestre.

Sob a firme orientação de Mestre Corvo, Levi consolidou-se na capoeiragem e realizou sua formatura oficial de Mestre no ano de 1981, integrando a renomada Associação de Capoeira Cruzeiro do Sul ao lado de parceiros de formatura como o Mestre Montana. O falecimento prematuro de Mestre Corvo em 1986 deixou uma profunda saudade em Levi, que carrega as lições de ética, os ensinamentos de vida e a postura de “olho vivo e pé ligeiro” de seu mestre até hoje.


A Associação Casa do Engenho e o Legado Histórico

Mestre Levi é o fundador da Associação Casa do Engenho de Capoeira. O nome da instituição carrega uma profunda metáfora sobre a ancestralidade e o compromisso cultural. O engenho era historicamente o local de trabalho pesado e compulsório de segunda a sábado; como capoeirista, Levi define-se como um “escravo da capoeira” que não possui folga nem aos domingos, dedicando os sete dias da semana às viagens, pesquisas, rodas e difusão da arte. A Casa do Engenho representa, portanto, uma “casa de trabalho” e dedicação incessante.

Na vida pessoal e familiar, Mestre Levi transmitiu a herança da capoeira para o filho, que treinou até os 17 anos, e para a filha, que se formou em Educação Física. Além disso, a árvore genealógica de sua linhagem expandiu-se pelo Brasil, tendo ramificações que chegam a Pernambuco através de seu aluno Paulo Tavares e de seu “neto de capoeira”, Mestre Zé do Bola.

Exímio capoeirista reconhecido por sua postura de “Lord” e elegância nas rodas, Mestre Levi destaca-se, também, como compositor e instrumentista, criador de dezenas de cantigas e corridos populares no meio da capoeira, como “Vem Sambarô” e as homenagens aos amigos falecidos Mestre Mucungê e Mestre Corvo). Na qualidade de pesquisador e historiador social, dedicou mais de 30 anos à preservação da memória oral e documental da capoeiragem no Rio de Janeiro. Mestre Levi mapeou minuciosamente, em formato de árvore genealógica, as quatro grandes escolas que estruturaram a capoeira em espaços fechados no Rio a partir da década de 1950 (Mestre Artur Emídio, Mestre Paraná, Mestre Roque e Mestre Mário Buscapé), salvaguardando o elo histórico das linhagens para as futuras gerações.


Filosofia de Resistência e Visão para o Futuro

Mestre Levi defende ferrenhamente a autonomia e a liberdade da capoeira, posicionando-se contra tentativas externas de regulamentação burocrática ou confinamento da arte no que refere como “caixinhas normativas”. Para ele, a capoeira é uma instituição histórica de resistência e o primeiro grande movimento negro de libertação no Brasil. Como defensor da tradição, ele realiza suas rodas mensais de preservação em espaços abertos e públicos em Duque de Caxias, mantendo a essência da “vadiação de rua” onde os uniformes não são compulsórios e o foco reside na comunhão e no respeito mútuo.

Celebrando seu aniversário anualmente no dia 19 de agosto, Mestre Levi permanece ativo na defesa da inclusão de todas as pessoas, celebrando a expansão e o protagonismo conquistado pelas mulheres na capoeira moderna. Seu maior apelo direcionado à comunidade capoeirista é a união política e o afeto histórico, instando os praticantes a cuidarem e reverenciarem seus mestres em vida, honrando o sofrimento e a herança deixada pelos ancestrais.

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Mestra Magali https://redeubuntu.org.br/mestra-magali/ Mon, 13 Jul 2026 15:03:57 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10837 Mestra Magali

Mestra Magali

Fotos: Xerel


Origens, Força e a Resiliência na Capoeira Feminina

Nascida em uma família humilde, a trajetória de Mariluce da Silva Souza foi moldada desde cedo pela força do exemplo feminino. Criada exclusivamente por sua mãe após o falecimento precoce de seu pai, ela enfrentou uma infância turbulenta, marcada pelos desafios que sucederam um grave acidente sofrido por sua progenitora. Diante das adversidades, sua mãe lhe deixou o maior de todos os legados: o valor inestimável dos estudos.

Honrando esse ensinamento, ela concluiu o ensino médio mantendo uma rotina de muito sacrifício. Para ajudar no sustento do lar e garantir sua permanência na escola, usava a criatividade e o que a natureza oferecia. Recolhia as mangas que caíam no telhado de sua casa para produzir e vender sacolés. Dividindo-se entre os livros, as faxinas e o comércio ambulante, ela forjou seu caráter na honestidade e na resiliência.


O Encontro com a Capoeira e o Pioneirismo na Roda

Seu ingresso no universo esportivo começou pelo atletismo na Universidade Gama Filho. No entanto, o destino reservava um chamado mais profundo através de suas raízes. Por meio do convite de um primo, conhecido no mundo da arte como Mestre Negativo, ela teve o seu primeiro contato formal com a capoeira. Mestre Negativo havia sido aluno do renomado Mestre Boneco, e foi sob essa linhagem que ela iniciou sua caminhada.

Ao entrar na roda, enfrentou e venceu as barreiras da representatividade. Na época, era a única aluna negra a treinar sob a tutela de Mestre Boneco naquele espaço. Embora defina a presença e o impacto da capoeira em sua vida como uma força vital e transformadora que vai além das palavras e não se consegue explicar, foi no toque do berimbau que Mestra Magali encontrou sua verdadeira liberdade.


Três Décadas de Legado Educacional e Fronteiras Rompidas

A capoeira e a educação, duas forças que herdou de sua história, uniram-se em sua profissão. Ela tornou-se professora de capoeira em uma instituição de ensino, onde realiza um trabalho sólido e duradouro. Em 2026, celebra a marca de 30 anos de dedicação contínua na mesma escola, transformando gerações de estudantes através do esporte e da cultura afro-brasileira.

O respeito conquistado na salvaguarda da arte rompeu as fronteiras do Rio de Janeiro. Como capoeirista respeitada, Mestra Magali viajou por vários estados brasileiros e levou o axé do nosso patrimônio imaterial para o exterior, representando o Brasil em eventos internacionais.


Militância Feminina e o Olhar para o Futuro

Atualmente, ela integra o relevante movimento Danda Viva Capoeira, uma frente que atua ativamente no empoderamento e na visibilidade das mulheres dentro da capoeiragem. Com o olhar voltado para a equidade e o respeito, assume como sua grande missão política e cultural fomentar e construir eventos onde as mulheres sejam a base, o protagonismo e a liderança das rodas.

Com mais de três décadas de experiência no chão da escola e das rodas, ela defende com paixão que a capoeira é um território sagrado para a juventude, desde que os novos praticantes sejam bem trabalhados, acolhidos e guiados por bons mestres. Para ela, a arte do berimbau é uma escola de vida insubstituível. Para a Mestra Magali, “a juventude é muito bem-vinda na capoeira quando é bem trabalhada e guiada. Todo jovem, sem exceção, deveria ter a oportunidade de vivenciar a capoeira pelo menos uma vez na vida”.

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Mestra Marlucia https://redeubuntu.org.br/mestra-marlucia/ Mon, 13 Jul 2026 14:35:08 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10809 Mestra Marlucia

Mestra Marlucia

Fotos: Maria Buzanovsky


A Força e a Resistência da Mulher no Manguezal

Marlúcia Correa Santos é pescadora caranguejeira na Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangues de Magé (ACAMM) há mais de 10 anos. Em sua adolescência lidou com uma maternidade precoce e enfrentou os desafios que fazem parte da vida de muitas mulheres brasileiras. O machismo e as violências do cotidiano, porém, não impediram a pescadora de mudar sua própria história. Com a ajuda de seu cunhado aprendeu a trabalhar no mangue em busca de seu sustento e de sua família. Graças à Associação, Marlucia encontrou em outras pescadoras um acalanto para recomeçar.

Marlucia iniciou sua trajetória de vida de forma muito próxima às realidades e aos desafios da vida ribeirinha. Mãe muito jovem, enfrentou a maternidade difícil aos 17 anos de idade, um período que exigiu resiliência enquanto conciliava os cuidados com a família e as responsabilidades precoces.

Em 1984, Marlucia casou-se com um pescador. Durante muito tempo, sua rotina se resumia a cuidar estritamente do lar. No entanto, ao observar o ofício do marido e a riqueza natural que cercava sua região, nasceu em seu coração o profundo desejo de ir para o manguezal, para trabalhar.

Inicialmente, Marlucia enfrentou resistência. A princípio, o “não” que recebeu como resposta e os obstáculos impostos para que ela não desempenhasse aquela atividade, em vez de desanimá-la, funcionaram como combustível. A negativa despertou de vez a sua vontade de ir para o manguezal. Com determinação, ela passou a traçar e criar estratégias próprias para conseguir adentrar aquele espaço, conquistando o seu direito de trabalhar junto à lama e às águas.


O Ofício no Mangue e a Consciência Ambiental

Ao consolidar-se na atividade, Marlucia tornou-se uma pescadora e integrou-se ativamente ao grupo de caranguejeiras locais. O dia a dia no mangue trouxe a ela não apenas o sustento, mas também uma percepção aguçada sobre as questões ambientais correlacionadas ao mangue. Como catadora e pescadora, ela compreendeu de perto a importância da preservação desse ecossistema sensível, que sofre constantemente com os impactos da degradação e do qual tantas famílias dependem para sobreviver.

Além de sua forte atuação na pesca, Marlucia estruturou sua vida familiar e criou três filhos, que hoje desempenham profissões distintas e honradas na sociedade: um seguiu os passos da família como pescador, outro atua como pedreiro e o terceiro trabalha como barbeiro.


O Coletivo de Mulheres e a Troca de Saberes

Atualmente, o maior refúgio de força e união de Marlucia está no ambiente de comunicação e vivência com outras mulheres trabalhadoras do mar. Ela define essa convivência como uma verdadeira troca de saberes e entrosamento cultural. Dentro desse coletivo, as mulheres compartilham valiosos conhecimentos ancestrais que vão muito além da pesca, a exemplo dos experimentos de medicina tradicional, com o uso de ervas nativas para tratamentos e chás, e a descoberta de novos tipos de alimentação e temperos da terra na elaboração culinária e de condimentos.

A valorização da tradição é um pilar fundamental no cotidiano de Marlucia. Após retirarem os alimentos diretamente do manguezal, as mulheres se reúnem para cozinhar juntas, sempre à moda antiga, utilizando o tradicional fogão de lenha para preparar o próprio sustento. Mestra Marlucia afirma que “é muito legal esse entrosamento, porque há uma troca de conhecimento que fortalece… nos faz sair fortalecida […] cada uma que chega lá tem chegado só para somar”.

A Mestra segue firme em sua caminhada, sendo o retrato da união comunitária, da soberania alimentar e da liderança de mulheres que protegem as águas, a terra e a memória coletiva, provando que o manguezal também é espaço de direito, voz e autonomia feminina.

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Mestríssimo Pedro da Água Limpa https://redeubuntu.org.br/mestrissimo-pedro-da-agua-limpa/ Sun, 12 Jul 2026 11:28:43 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10558 Mestríssimo Pedro da Água Limpa

Mestríssimo Pedro da Água Limpa

Fotos: Maria Buzanovsky


O Homem e
Suas Raízes

Pedro Antônio Francisco, amplamente conhecido e respeitado como Mestríssimo Pedro da Água Limpa, é historiador, escritor, capoeirista, jongueiro e ativista da igualdade racial. Aos 76 anos, ele é identificado como uma das figuras mais emblemáticas e influentes de Volta Redonda (RJ) e região, dedicando sua vida à preservação cultural e ao combate incansável ao racismo e à desigualdade social.

Sua consciência social e o aprofundamento nas pautas de igualdade racial começaram cedo, aos 13 anos de idade. Desde a adolescência, o Mestríssimo Pedro transformou a busca pela justiça e o orgulho de suas ancestralidades no motor de sua trajetória.

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A Trajetória na Capoeira e o Título de Mestríssimo

Com uma sólida e respeitável caminhada de 54 anos na capoeira, este Mestre alcançou o ápice da graduação e do reconhecimento dentro da salvaguarda dessa arte. O título de mestríssimo carrega um significado profundo de ancestralidade e continuidade: ele é o mestre que, ao longo de sua jornada, formou outros seis mestres de capoeira. O marco dessa transição ocorreu no ano de 2000, quando ele batizou dois mestres que o acompanhavam desde os 12 anos de idade. Foi a partir daquele momento que Pedro decidiu alterar formalmente o termo pelo qual era chamado, evoluindo de “Mestrão” para “Mestríssimo”, consolidando seu papel de grande formador e guardião dos saberes da roda.


Estilo Único: A Estética como Expressão de Liberdade

Além de sua atuação política e cultural, Pedro é amplamente lembrado por sua identidade visual marcante e inconfundível. Seu estilo funde a sensibilidade sonhadora do artista com o respeito reverente às suas origens. Ele frequentemente transita pelas ruas vestindo mantos africanos e cocares indígenas, honrando a pluralidade de suas matrizes culturais.

Colecionador e entusiasta de indumentárias que contam histórias, Pedro possui 18 ternos personalizados, alimentando a meta de atingir 30 peças exclusivas. Entre suas vestes performáticas mais famosas na região, destacam-se uma capa vermelha e um capacete espartano. Embora a armadura inicialmente impressione, ela serve como uma poderosa ferramenta pedagógica de atração e diálogo com o público. Como descreve o Mestríssimo Pedro da Água Limpa: “Espartano é um personagem que escrevo e as pessoas nas ruas confundem com gladiador, [então] eu explico a diferença. Gladiador é um escravo de Roma, um soldado que foi vencido; um espartano é um soldado livre de Esparta”.


Legado e
Reconhecimento

O impacto de suas cinco décadas de atuação ecoa fortemente no cenário do Sul Fluminense. Como escritor e historiador, ele documenta e celebra a cultura afro-brasileira, enquanto sua presença no Jongo mantém viva uma das expressões mais sagradas da ancestralidade regional.

Em reconhecimento à sua imensurável contribuição para o patrimônio cultural, a memória e a justiça social da cidade, Mestríssimo Pedro foi homenageado em 2019 com uma Sessão Solene na Câmara de Vereadores de Volta Redonda, eternizando seu nome na história do município como um verdadeiro guerreiro livre da cultura popular.

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Mestra Preta https://redeubuntu.org.br/mestra-preta/ Sat, 11 Jul 2026 19:56:58 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10386 Mestra Preta

Mestra Preta

Fotos: Maria Buzanovsky


Perfil Pessoal
e Origens

Deise Aparecida Porto Claro é uma mulher cisgênero, negra (autodeclarada parda), na faixa etária de 41 a 50 anos e natural do estado do Rio de Janeiro. Residente há mais de 11 anos no município de Barra Mansa, é praticante da religião Católica, casada e mãe, e possui Ensino Superior completo, atuando profissionalmente como contadora. Sua entrada no universo cultural foi marcada pela resistência e pela quebra de barreiras de gênero. Ela começou a se interessar pela capoeira através de seu irmão, mesmo ouvindo de sua mãe que aquilo “era coisa de menino”. Mais tarde, ela abraçou de vez a arte quando sua própria filha também demonstrou interesse, transformando a prática em um legado familiar.


Trajetória Cultural
e Saberes

Com uma sólida trajetória de 25 anos de atuação, Mestra Preta dedica-se prioritariamente à área de Cultura e Juventude. Ela aprendeu seus saberes da forma mais tradicional, observando mestres e mestras fazerem. Seus conhecimentos são vastos e multifacetados, englobando capoeira, cultura afro, tradição oral, artes cênicas, música, esporte, comunicação e Direitos Humanos, entre outras linguagens.


Atuação no coletivo Associação de Capoeira Ducarmarina

Mestra Preta é uma das lideranças e fundadoras da Associação De Capoeira Ducarmarina, uma instituição formalizada (com CNPJ) e com sede própria no bairro Vila Maria, em Barra Mansa. O coletivo, que possui base comunitária, nasceu da necessidade de estruturar e expandir o trabalho com a capoeira. Unindo forças com o Mestre Branco e o Mestre Lima, a instituição foi criada para levar a arte à comunidade, formar alunos e participar de competições, já sendo certificada via edital da Secretaria Municipal.

A Associação destaca-se por sua infraestrutura inclusiva, adotando rigorosas medidas de acessibilidade física (rampas, banheiros adaptados, espaço de manobra para cadeiras de rodas) e comunicacional (janela e intérpretes de Libras, materiais em escrita fácil). O trabalho atende um público diverso, embora na maioria afro-brasileiros, incluindo crianças, jovens, mulheres e pessoas com deficiência. A equipe do coletivo é robusta, contando com profissionais como Mestre Branco, Avatar (Monitor), Talita, Neide, Bidê, Rafael e Tata.


Aspectos Socioeconômicos
e o Olhar ao Redor

Como trabalhadora assalariada com carteira assinada, Mestra Preta possui uma renda familiar estável (entre 3 e 5 salários mínimos) e mora em residência própria, de alvenaria, com ótima infraestrutura. No entanto, ela não está alheia aos desafios de sua comunidade. Ela aponta como problemas muito graves em sua comunidade a falta de espaços culturais (locais para show/teatro), escassez de médicos, segurança precária e o uso de drogas e alcoolismo.

Além dos desafios estruturais, a Mestra carrega a marca de já ter enfrentado episódios de preconceito e agressão motivados pela sua cor/raça no ambiente escolar, situação na qual demonstrou sua força ao enfrentar o agressor. Sua trajetória é um grande exemplo de dedicação à cultura afro-brasileira, empoderamento feminino e transformação social por meio da capoeira.

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Mestre Robson Luiz https://redeubuntu.org.br/mestre-robson-luis-folia-de-reis-estrela-guia/ Sat, 18 Jul 2026 21:53:37 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=11639 mestre robson luiz

Mestre Robson Luiz

Fotos: Maria Buzanovsky


Origens e Devoção: O Berço da Tradição

Nascido e criado no bairro Niterói, no município de Itaperuna, no interior do estado do Rio de Janeiro, Robson Luiz Santos traz a cultura popular enraizada em sua história desde o nascimento. Vindo de uma família de forte tradição folclórica, Robson cresceu acompanhando os passos de seu avô, que era dono de uma Folia de Reis tradicional, grupo que, antigamente, iniciava sua jornada no Dia de Reis (6 de janeiro) e só retornava para casa no dia 20 de janeiro.

Ainda na infância, a trajetória de Robson com a manifestação cultural ganhou um contorno de profunda devoção religiosa. Devido a um grave problema de saúde, ele acabou perdendo a visão quando era muito jovem. Diante disso, sua mãe fez uma promessa a Deus e a Santa Luzia: se o menino voltasse a enxergar, ele sairia em desfile na Folia de Reis durante sete anos seguidos para pagar a graça alcançada. Abençoado com a recuperação de sua visão, o jovem cumpriu rigorosamente a promessa. O que começou como um ato de fé e uma brincadeira de criança, quando ele e os amigos se divertiam simulando uma folia com latinhas, transformou-se em amor e missão de vida.


A Fundação da Folia de Reis Estrela da Guia

Após o período de cumprimento da promessa e uma breve pausa nas atividades, o desejo de dar continuidade ao legado familiar falou mais alto. No ano de 1994, Robson e seus companheiros uniram forças para comprar novos instrumentos musicais, preparando-se para colocar o grupo oficialmente nas ruas a partir do Natal daquele ano. Nascia assim a Folia de Reis Estrela da Guia, coletivo que já soma mais de 30 anos de atuação ininterrupta na valorização da música e da dança tradicionais.

Atuando de forma independente na comunidade, a Estrela da Guia realiza seus festejos e visitas anuais entre os dias 24 e 25 de dezembro, estendendo-se ao longo do mês de janeiro. O grupo percorre as casas do bairro Niterói e de outras localidades da região, cantando e celebrando a temática do nascimento de Jesus Cristo, mantendo viva a dinâmica de passar a noite em cortejo e retornar no período da tarde.


Estrutura Comunitária e Desafios Cotidianos

A sede da folia funciona na própria residência da família de Robson, uma casa de alvenaria compartilhada por várias gerações em um quintal familiar na Rua Oswaldo Cruz. É nesse espaço que o grupo se organiza, faz a limpeza dos adereços e confecciona as fardas e roupas com o auxílio de um costureiro local, que também reside na casa.

Embora o coletivo seja de base puramente comunitária e não possua CNPJ ou a titulação formal de Ponto de Cultura, a iniciativa já obteve reconhecimento através de políticas públicas recentes. Nos últimos anos, a folia foi contemplada por editais de fomento cultural (como a Lei Paulo Gustavo), recursos que foram integralmente revertidos para a manutenção do grupo, compra de instrumentos e confecção de uniformes e bonés.

Atualmente, Mestre Robson equilibra a liderança do grupo com o seu trabalho como servente. Enfrentando as dificuldades típicas dos realizadores da cultura popular, como a falta de recursos fixos e um espaço físico limitado para ensaios, ele permanece firme no propósito de salvaguardar a tradição que herdou de seus antepassados, garantindo que o pavilhão da Estrela da Guia continue iluminando as ruas de Itaperuna.

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Mestre Sapão https://redeubuntu.org.br/mestre-sapao/ Sun, 12 Jul 2026 14:13:40 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10650 Mestre Sapão

Mestre Sapão

Fotos: Mariana Monteiro


Origens e os Primeiros Passos no Alto do Morro

A trajetória de Alan Ricardo da Costa, amplamente respeitado no cenário da cultura popular como Mestre Sapão, começou a se desenhar em 1989. Seus primeiros passos na capoeira foram dados no Alto do Morro, no bairro do Retiro, em Petrópolis (RJ), sob a condução de seu irmão Eduardo. Naquela época, desenvolveu uma prática intensa e genuína de capoeira de rua.

Seu apelido marcante, Sapão, nasceu da combinação de sua fisionomia forte com a agilidade impressionante de seus saltos nas rodas. Após concluir seu período de serviço militar e dar baixa no Exército Brasileiro, Alan decidiu migrar para a Região dos Lagos, levando consigo a paixão e a disciplina da arte afro-brasileira.


A Chegada a Cabo Frio e o Pioneirismo no Jardim Esperança

O ano de 1994 marcou a chegada definitiva do jovem Alan a Cabo Frio. Sua recepção e o início de suas atividades docentes na periferia da cidade foram registrados de forma pioneira no CIEP Armínio de Barcelos, localizado no Jardim Esperança. Essa introdução histórica da capoeira na rede de ensino local foi eternizada em um documentário e em matérias de imprensa, consolidando o marco inicial de sua inserção no território.

Mestre Sapão exerceu um papel fundamental de desbravador cultural na Região dos Lagos. Em uma época em que o esporte e a cultura popular eram escassos nas periferias locais, ele foi o responsável por introduzir e estruturar a capoeira no Jardim Esperança e em diversas áreas adjacentes, incluindo bairros como Tangará, Reserva do Peró e Parque Eldorado 3, onde reside atualmente. Seu pioneirismo alcançou também as comunidades escolares e as imediações de territórios tradicionais quilombolas de Cabo Frio, estabelecendo um elo profundo e duradouro com os descendentes tradicionais que, até os dias atuais, reconhecem o seu legado e deslocam-se de suas localidades para treinar sob a sua tutela.


O Legado de Mestre Chita e a Expansão do Grupo Redentor

Em sua caminhada técnica e de graduação, Alan foi aluno de Mestre Canarinho e, posteriormente, do Mestrando Simpatia. Contudo, sua maturidade artística e sua definitiva formação como mestre foram consolidadas ao lado de uma das maiores referências da capoeira fluminense: Itamar da Conceição Magalhães, o Mestre Chita, que infelizmente faleceu em decorrência da pandemia de COVID-19. A parceria e a fidelidade aos ensinamentos de Mestre Chita estenderam-se por quase duas décadas da vida do Mestre Sapão.

Atualmente ostentando a graduação de Mestre Segundo Grau, Alan Ricardo preside o Grupo Redentor Capoeira. A instituição, originalmente fundada por Mestre Joel no Rio de Janeiro, no bairro do Cristo Redentor, origem de seu pavilhão, transformou-se sob a gestão de Sapão em uma potente rede internacional de transformação e inclusão social. Com caráter estritamente filantrópico e zero fins lucrativos, o grupo atende a mais de 1.000 alunos espalhados pelo primeiro e segundo distritos de Cabo Frio, por toda a Região dos Lagos, pelo centro do Rio de Janeiro e, cruzando fronteiras, mantém núcleos ativos em três países.


Campeões da Periferia
para o Mundo

Focado na emancipação de jovens vulnerabilizados, Mestre Sapão transformou o Grupo Redentor em um celeiro de atletas de alto rendimento. Suas ações retiram crianças e adolescentes da periferia – cenário de onde o próprio mestre orgulhosamente descende – e os projetam nos principais pódios de competições regionais e nacionais, como os campeonatos VMB e diversas copas tradicionais da modalidade.

O fruto de mais de três décadas de dedicação ininterrupta reflete-se na formação de sua própria linhagem de seguidores. Hoje, os primeiros alunos acolhidos por Alan em sua chegada na década de 1990 já alcançaram o topo da hierarquia da capoeira, a exemplo de Mestre Mantena, que perpetua a metodologia de Sapão no município de Maricá (RJ).

1 VMB é a sigla para Volta ao Mundo Bambas, a maior competição de capoeira de alto rendimento e alto nível do mundo, cujo objetivo é profissionalizar a capoeira atlética e o mercado competitivo.


Legado

Ativo e permanentemente presente no chão do Jardim Esperança, Mestre Sapão personifica a essência da capoeira como ferramenta de re-existência e cidadania. Sua biografia é o testemunho vivo de um cidadão que usou a força de seus saltos e a generosidade de seus ideais para romper as barreiras da exclusão social, fazendo do pulo do sapo um impulso para que centenas de jovens conquistem o mundo.

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Indígena Xikito Pury https://redeubuntu.org.br/indigena-xikito-pury/ Sat, 11 Jul 2026 20:50:24 +0000 https://redeubuntu.org.br/?page_id=10426 Indígena Xikito Pury

Indígena Xikito Pury

Fotos: Maria Buzanovsky


Perfil Pessoal
e Origens

Francisco Donizetti Machado da Rocha, que utiliza em suas redes a identidade Xikito Pury, é homem cisgênero, autodeclarado indígena, com 61 anos incompletos.

Nascido, criado e frequentador assíduo de Fumaça, zona rural do município de Resende, local em que seus pais, idosos, residem e pode acompanhá-los, sendo a sua segunda residência. É, também, o local onde ele realiza suas atividades culturais, com o Espaço Cultural Sá Quirina Pury, primeiro Ponto de Cultura da região reconhecido pelo Ministério da Cultura em janeiro de 2026. Separado judicialmente e pai de um filho, Francisco possui o Ensino Superior incompleto e mantém a fé de sua criação, sendo praticante da religião Católica.


Trajetória de Resgate
e Identidade Indígena

Com uma atuação de mais de vinte anos voltada para a valorização das culturas indígenas e Mãe Terra, a história de Francisco é marcada por um profundo processo de busca histórica e autoafirmação. Sua jornada começou no ativismo comunitário atuando como presidente da associação de moradores, período em que iniciou uma pesquisa para documentar o cotidiano e a trajetória das pessoas da região da Fumaça.

A partir de 2006, seu olhar voltou-se especificamente para a herança indígena presente naquela zona rural. Ao entrevistar os moradores, Francisco identificou um grave apagamento histórico: a maioria das pessoas não se reconhecia como indígena por temer retaliações, preconceitos ou até agressões. Esse cenário o motivou a ir além. Em 2008, após uma busca intensa, ele descobriu sua própria ascendência indígena e passou a realizar levantamentos em cartórios e igrejas em busca de registros físicos. Em 2021, ele finalmente conseguiu comprovar e identificar a etnia de seu povo e, em 2023, passou a se autodeclarar oficialmente como um indígena da etnia Pury.


Atuação no coletivo “Núcleo Cor de Cuia Pury”

O Mestre Xikito Pury é o principal articulador do Núcleo Cor de Cuia Pury, um coletivo de base comunitária, enraizado em território tradicional. O grupo atua de forma independente (sem CNPJ de associação, operando via MEI) e não possui sede própria, centralizando suas atividades culturais na própria residência de Francisco.

O trabalho do Núcleo é focado na população indígena e transita por áreas fundamentais como Museu e Memória, Artesanato, Cultura e Turismo. A principal missão do coletivo é manter viva a história que os registros oficiais tentaram apagar. Embora o espaço atual não conte com medidas de acessibilidade e o grupo enfrente a falta de apoio financeiro, o Mestre tem projetos aptos para captação de recursos e segue divulgando seu trabalho nas redes sociais (Instagram e YouTube: @xikito.pury_francisco).


Contexto Socioeconômico e Desafios

Vivendo de sua atividade artístico-cultural como trabalhador por conta própria, Mestre Xikito Pury possui uma renda familiar mensal de até 1 salário mínimo. Ele mora em uma casa financiada pelo programa Minha Casa Minha Vida, que apresenta um bom padrão construtivo e acesso adequado a serviços básicos (como água encanada, esgoto tratado e pavimentação). No campo da saúde, ele lida com a asma. Em relação ao seu território, avalia a segurança pública como satisfatória, mas aponta problemas comunitários muito graves, como a falta de espaços culturais (locais para shows e teatro) e o uso de drogas na região. Além disso, a falta de creches, escolas e médicos também são classificadas como questões graves. Para a continuidade de seu trabalho de resgate cultural, seus maiores desafios hoje são a captação de recursos e a conquista de um espaço físico adequado para o Núcleo.

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